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Novos tempos, novos lugares: a Saúde Mental em perspetiva

Marco Torrado, coordenador de Psicologia no Hospital CUF Tejo e professor auxiliar convidado na NOVA Medical School, assinala o Dia Mundial da Saúde Mental através de um artigo de opinião. Não só reforça o estigma que permanece na população geral como assinala os equívocos que permanecem entre os profissionais de saúde. Por fim, chama a atenção para o I Encontro de Inovação e Promoção da Saúde Mental, evento que vai acontecer nos dias 10 e 11 de outubro, no Hospital CUF Tejo.

Os equívocos em torno da doença mental não se semeiam, apenas, entre a população geral. Existem também entre pessoas com maior nível de literacia e até entre profissionais de saúde. É essencial uma mudança de paradigma na promoção da Saúde Mental.

Num contexto sociopolítico global exigente e áspero, aproximamo-nos de mais um 10 de outubro, o Dia Mundial da Saúde Mental. Pensar a Saúde Mental, nesta conjuntura, pode parecer mera utopia. Em boa verdade, limita, certamente, a possibilidade de aceder, com alguma criatividade, a novos caminhos para uma Saúde Mental mais ampla e transformadora, capazes de mobilizar pessoas e instituições em torno deste bem comum e necessário.

Mais do que um pretexto – só por si bastante válido –  para reiterar a importância da Saúde Mental como pilar determinante de toda a saúde e da qualidade de vida, esta data exige, nos tempos atuais, que possamos fazer mais e melhor, aspirando a ter Saúde Mental para todos.

Longas décadas foram necessárias para que, hoje, seja comummente aceite que a doença mental pode afetar qualquer pessoa, numa qualquer fase da vida, e que prejudica o bem-estar, a integração social e a produtividade. Sabemos de múltiplos fatores de risco que vulnerabilizam para a doença mental, conhecemos melhor as variáveis que reforçam a Saúde Mental, mas as dificuldades em mitigar os primeiros e sustentar continuamente os segundos mantêm-se, de forma expressiva.

O estigma em torno desta área de intervenção, seja nos cuidados, prevenção ou reabilitação, ainda persiste. Constitui uma herança pesada de tempos e lugares áridos dos cuidados em Saúde Mental, mas são tempos e lugares que subsidiam ideias que proliferam, ainda hoje, num certo inconsciente coletivo, que importa desenovelar.

Estas ideias travam a conceção de uma Saúde Mental que é, por direito, de todas as pessoas, nos tempos e lugares do seu desenvolvimento, o que implica que seja promovida em todas as fases da vida, junto das famílias, das escolas, dos contextos de trabalho, e das várias malhas que compõem o tecido social.

Os equívocos em torno da doença mental não se semeiam, apenas, entre a população geral, mas também entre pessoas com maior nível de literacia e, até, entre profissionais de saúde. É que, ao contrário da maior parte das doenças físicas, ainda não dispomos de marcadores absolutamente objetivos – biológicos ou moleculares, como tantos desejam – para melhor compreendermos as doenças mentais, um pouco à semelhança dos marcadores de doenças como a hipertensão ou a diabetes.

Não conhecermos em absoluto todos os mecanismos das doenças mentais pode assustar alguns, mas, felizmente, desperta a curiosidade de outros que, com uma visão humanista e sustentada na evidência científica, vão alicerçando conhecimento e ousam inovar, seja na investigação, seja na criação de novos meios para apoiar aqueles que, como pode acontecer a qualquer um de nós, padecem de um sofrimento psíquico.

Tal processo exige resiliência e tolerância, num esforço de mudança paulatina do olhar sobre a Saúde Mental das sociedades, que passa por um reforço da inovação nos cuidados e pela prevenção da doença. Trata-se de um caminho em que importa envolver especialistas e académicos, filósofos e empresários, decisores políticos, pessoas com doença mental e as suas famílias. Todos, sem exceção, podem e devem contribuir, priorizando aquilo que de mais precioso suporta a nossa condição existencial: a relação humana.

Por tudo isto, em junho deste ano, a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde de França, no contexto da conferência de alto nível “Mental Health in All Policies: Address Challenges and Design Shared Solutions”, reiteraram a importância de melhor operacionalizar as medidas de promoção da Saúde Mental, nos seus diferentes níveis e junto dos seus atores de intervenção.

Além disso, no passado mês de setembro, a Saúde Mental marcou também, pela primeira vez, a agenda de uma reunião da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na qual se assumiu que a promoção da Saúde Mental e do bem estar, bem como a prevenção e controlo das doenças não transmissíveis, são fundamentais para o desenvolvimento sustentável das sociedades.

Esta necessária mudança de paradigma será, também, objeto de reflexão no I Encontro de Inovação e Promoção da Saúde Mental CUF, organizado pela CUF Academic Center nos dias 10 e 11 de outubro, no Hospital CUF Tejo. Sob o tema “Novos tempos, novos lugares”, o encontro pretende promover o diálogo entre profissionais de saúde, investigadores e estudantes sobre novas abordagens de promoção da Saúde Mental, os desafios terapêuticos e a importância da prevenção para melhorar a resposta às necessidades da população.

Não esqueçamos que, muito recentemente, durante a pandemia, a Saúde Mental ganhou uma atenção inédita. Ora por curiosidade mediática, ora porque muitos sentiram na pele a sua falta, foram anos em que se falou, pensou e até se investiu, como nunca, na Saúde Mental. Porém, hoje, é parcamente veiculada. Pouco se ouve e discute sobre os impactos na Saúde Mental de gerações marcadas pela guerra ou sobre os efeitos que estas experiências poderão ter nos mais jovens, com aparelhos mentais ainda em construção.

Todos, mas mesmo todos, têm o direito a mais e melhor Saúde Mental. São precisos novos tempos e novos lugares, promovidos em conjunto, para que se cumpra esta ambição, tão essencial quanto exigente e desafiante.

Terça-feira, 07 Outubro 2025 09:54


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