O aumento do tempo passado em frente aos ecrãs está a levantar preocupações crescentes entre especialistas. Ivone Patrão, psicóloga clínica e investigadora no ISPA – Instituto Universitário, defende que pais e educadores devem estar atentos a sinais precoces de uso problemático, sobretudo entre crianças e jovens.
“É muito importante estarmos atentos ao sono, à forma como dormimos e como usamos os ecrãs”, afirma. A especialista destaca ainda a importância das rotinas familiares, como as refeições e os momentos de início e fim de dia, sugerindo que o ecrã deve ser afastado nesses períodos para preservar o convívio e a qualidade das interações.
Entre os principais sinais de alarme, Ivone Patrão aponta alterações emocionais e crianças e jovens que recorrem ao ecrã como refúgio para evitar emoções negativas ou problemas do quotidiano.
“Muitas vezes refugiam-se no jogo ou nas interações online para fugir a conflitos que continuam a existir offline”, explica. Embora reconheça que a socialização digital faz parte da realidade atual, sublinha que o mundo offline não pode ser substituído.
Conflitos familiares associados ao uso do ecrã são outro indicador preocupante. Quando a discussão em casa gira sistematicamente em torno do tempo de utilização, pode estar a emergir um padrão problemático. “Não se passa do não ser dependente para acordar dependente. Há um processo que vai do hábito ao vício”, alerta.
A investigadora defende que mais importante do que momentos pontuais de “detox digital” é promover atividades offline regulares. Questionados sobre interesses fora do ambiente digital, muitos jovens com uso excessivo revelam ter menos atividades presenciais do que online.
A prática de atividade física, o contacto com a natureza e o desenvolvimento de competências sociais são considerados fundamentais para o crescimento saudável. A experiência do confinamento durante a pandemia demonstrou, segundo a psicóloga, que a interação exclusivamente online não é suficiente para o bem-estar.
De acordo com estudos das últimas duas décadas, a prevalência da dependência dos ecrãs tem aumentado entre os mais novos. Perante este cenário, a supervisão parental surge como um dos fatores mais protetores.
A investigadora lembra ainda que crianças mais introvertidas podem ter maior tendência para se refugiar no ecrã, exigindo uma atenção ajustada às suas características individuais.
O equilíbrio, conclui, não passa por excluir o mundo digital, mas por garantir que o online e o offline coexistem de forma saudável, com acompanhamento próximo e comunicação aberta no seio familiar.

