Administrar oxigénio de forma precoce, através de cânula nasal de alto fluxo, está associado a melhores resultados nos doentes mais imunodeprimidos com insuficiência respiratória aguda (IRA) internados em cuidados intensivos. Esta é uma das principais conclusões do estudo internacional EFRAIM III (um dos maiores de sempre em medicina intensiva, agora publicado na The Lancet Respiratory Medicine) e que contou com a participação do professor Pedro Póvoa (diretor da NOVA MedicalSchool) na equipa de investigação.
O estudo analisou dados de quase 10.000 doentes adultos imunodeprimidos em estado crítico, internados em 103 unidades de cuidados intensivos de 26 países, incluindo doentes portugueses tratados nas UCI da Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental bem como outros investigadores locais.
Os resultados mostram que a doença de base, a causa da IRA, e a estratégia inicial de suporte ventilatório estão associados à mortalidade aos 30 dias e à necessidade de entubação. Além disso, os resultados sugerem uma melhoria nos desfechos clínicos em comparação com estudos anteriores, e que a intubação traqueal pode já não ser considerada fútil nestes doentes. Dos muitos fatores de risco para a mortalidade identificados neste trabalho, alguns são passíveis de modificação. Embora sejam necessárias pesquisas adicionais, os resultados permitem propor alterações com vista à redução da mortalidade: estratégias de diagnóstico melhoradas para reduzir o número de doentes sem causa identificada de IRA, a admissão precoce na UCI e o uso de oxigenoterapia por cânula nasal de alto fluxo.
Os resultados obtidos permitem identificar não só os principais fatores de risco para a mortalidade e a necessidade de intubação, mas também a presença de coma na admissão, infeção grave provocada por fungos, necessidade de suporte vasopressor ou insuficiência renal aguda, como também confirmar os benefícios da oxigenoterapia por cânula nasal de alto fluxo administrado precocemente.
De realçar ainda a evidência confirmada na investigação: os doentes estão hoje a recuperar melhor do que há alguns anos, o que demonstra claramente não só a evolução da medicina intensiva, mas também a pertinência de uma abordagem terapêutica individualizada e clinicamente fundamentada no doente crítico imunodeprimido. Esta evolução leva mesmo os investigadores a concluir que a intubação (antes vista com grande reserva nestes doentes) pode hoje fazer a diferença e ajudar a salvar vidas.
“Estes resultados permitem-nos avaliar o risco de cada doente com maior precisão e decidir mais cedo e melhor. No fundo, ajudam-nos a tratar cada pessoa de forma individualizada, em vez de aplicarmos a mesma abordagem a todos”, refere Pedro Póvoa, diretor da NOVA Medical School, coordenador da UCI4 do Serviço de Medicina Intensiva do Hospital de São Francisco Xavier e um dos investigadores do estudo.
A medicina intensiva em Portugal estará igualmente em evidência no 39.º Congresso Anual da Sociedade Europeia de Medicina Intensiva (ESICM LIVES 2026) que, de 10 a 14 de outubro de 2026, se realiza no Centro de Congressos de Lisboa. O professor Pedro Póvoa, integra o Comité de Educação e Formação da ESICM e participará em vários momentos dedicados à formação dos profissionais de saúde, reforçando o papel da NOVA Medical School e de Portugal na preparação das próximas gerações de intensivistas.