O estudo da interoceção – a capacidade de perceber sinais do próprio corpo, como o batimento cardíaco – tem crescido na última década. Carlos Campos começou por explicar à News Farma que, embora a ciência já soubesse que estes sinais regulam funções básicas, emoções e decisões, faltava compreender “até que ponto a informação proveniente do nosso corpo contribui para compreendermos os estados emocionais e mentais das outras pessoas”. Segundo o investigador, foi para preencher esta lacuna que nasceu o projeto “The Empathic Heart” (projeto Fundação Bial 127/22), desenhado para combinar medidas neurofisiológicas com marcadores cerebrais e explicar fenómenos complexos como a empatia.
Questionado sobre a dificuldade técnica de isolar o sinal do coração perante tantos estímulos que o cérebro processa continuamente, o especialista admitiu que esse foi “um dos maiores desafios do projeto”. Para o ultrapassar, a equipa registou em simultâneo a atividade elétrica do cérebro (EEG) e do coração (ECG). O investigador pormenorizou que a equipa utilizou o sinal cardíaco para identificar cada batimento e alinhar fragmentos do sinal cerebral em torno desses momentos, implementando uma pipeline analítica avançada. Curiosamente, Carlos Campos partilhou que a equipa aprendeu que “eliminar demasiado ruído nem sempre melhora a qualidade dos dados”, adotando por isso uma abordagem mais equilibrada.
Durante o processo, os investigadores depararam-se com dados inesperados. Em declarações à News Farma, Carlos Campos revelou que a maior surpresa foi constatar a enorme sensibilidade dos potenciais evocados cardíacos a pequenas alterações nos procedimentos experimentais e de análise. O especialista explicou que aquilo que parecia simples de reproduzir, com base na literatura, revelou-se complexo e exigiu a realização de um estudo adicional de validação. Contudo, o investigador considera que esse obstáculo se tornou numa oportunidade para ajudar a padronizar e dar robustez metodológica a esta área científica.
Sobre a viabilidade da investigação, Carlos Campos não teve dúvidas em afirmar que o apoio da Fundação Bial foi “absolutamente determinante”. Sendo uma investigação fundamental, cujo impacto clínico não é imediato, o investigador confessou que o projeto corria o risco de não se realizar sem este financiamento. Foi esta bolsa que permitiu alocar recursos humanos, envolver voluntários e divulgar o trabalho internacionalmente, passos vitais para no futuro se identificarem biomarcadores em perturbações psiquiátricas e neurológicas.
A concluir a entrevista, e perspetivando o futuro, o especialista revelou-se otimista. Carlos Campos garantiu que a metodologia provou ser suficientemente robusta para avançar para contextos mais próximos da clínica. O investigador adiantou que os próximos passos passarão por integrar estes indicadores em modelos de Saúde Mental, relacionando-os com quadros de ansiedade, depressão ou alexitimia. Adicionalmente, frisou que a sua posição no Centro de Investigação em Reabilitação do Politécnico do Porto lhe permitirá utilizar estas medidas objetivas para avaliar o impacto de intervenções como o biofeedback, a estimulação do nervo vago e a neuromodulação não invasiva.
A Fundação Bial tem aberto novo programa de Apoios a Projetos de Investigação Científica nas áreas da Psicofisiologia e da Parapsicologia, com o objetivo de incentivar o estudo científico do ser humano, tanto do ponto de vista físico como espiritual. O regulamento e a documentação do programa estão disponíveis aqui. As candidaturas vão estar abertas até 31 de agosto de 2026.
