Com três décadas de experiência na gestão de comportamentos aditivos, João Goulão faz um diagnóstico direto do panorama nacional durante a terceira edição das Break Talks. O especialista aplaude o debate sobre as novas dependências sem substância, mas avisa que estas respostas não podem terminar com as existentes. Alerta ainda para o perigo do álcool barato e apela à resistência contra pressões populistas que ameaçam o modelo humanista português. Assista à entrevista.
Numa reflexão sobre o setor, o médico começou por sublinhar a importância de debater as adições sem substância, como o jogo, mas deixou o aviso de que não se podem desviar recursos humanos ou financeiros das estruturas atuais para responder aos novos desafios. “A criação de novas estruturas devem somar-se às já existentes e não aproveitar e deslocar apenas os recursos já existentes”, defendeu, recomendando firmemente aos governantes que “não cedam à tentação de desativar respostas que estão em funcionamento e são eficazes para oferecer novas respostas”, reflete.
Recordando a crise da heroína nas décadas de 80 e 90, o especialista explicou que a transversalidade dessa epidemia, que afetou desde os cidadãos mais vulneráveis à classe média e à classe política, ditou o pioneirismo da lei da descriminalização em 2000. Hoje, o panorama mudou e a heroína perdeu força, mas o médico aponta o álcool como o verdadeiro perigo atual devido à sua “ação deletéria na sociedade portuguesa”. O especialista defende a urgência de uma política fiscal e de preços que limite o acesso ao produto.
Por fim, João Goulão deixou um apelo firme aos atuais e futuros decisores políticos face a um cenário internacional marcado pela exclusão e pelo justicialismo. O grande objetivo de Portugal deve ser proteger a sua matriz assente no respeito pela dignidade: “É importante que consigamos segurar e fixar o nosso modelo, que tem uma base humanista, e não ceder a essa pressão, nomeadamente de algumas forças populistas”, reflete.
