Há uma geração de que se fala menos do que dos Baby Boomers, dos Millennials ou da Geração Z, mas que continua a sustentar uma parte muito significativa da economia, das organizações e das famílias: a Geração X.
Nascidos entre 1965 e 1980, os seus membros têm hoje, em 2026, aproximadamente entre 45 e 61 anos. Cresceram num mundo predominantemente analógico, começaram a trabalhar muitas vezes antes da generalização da Internet e acompanharam, já em idade adulta, algumas das maiores transformações tecnológicas, económicas e sociais das últimas décadas. Aprenderam a usar computadores, correio eletrónico, telemóveis, banca digital, redes sociais, aplicações, comércio eletrónico e, agora, inteligência artificial.É uma das gerações mais interessantes do ponto de vista da adaptação: não nasceram digitais, mas tiveram de se tornar digitais. E se virmos bem o perfil: são os que pagam as contas e a assumir grande parte da responsabilidade da vida familiar.
Em Portugal, os dados do Inquérito às Despesas das Famílias 2022/2023 mostram que 38,4% dos indivíduos de referência dos agregados familiares tinham entre 45 e 64 anos. É precisamente nesta faixa etária que hoje encontramos uma grande parte desta Geração X. E quando olhamos para a estrutura das despesas das famílias portuguesas compreendemos o peso desta fase da vida. Como exemplos:
- Habitação, água, eletricidade, gás e outros combustíveis representam 39,3% da despesa familiar média-
- A alimentação e bebidas não alcoólicas, 12,9%
- Os transportes, 12,1%.
E só estas três áreas absorvem cerca de 64% da despesa média das famílias portuguesas. É, por isso, uma geração que continua efetiivamente a pagar a casa, as compras, os transportes, os seguros, os impostos, a energia e muitas outras despesas que sustentam a vida quotidiana.
Mas a Geração X está hoje numa posição particularmente complexa. Apesar de muitos terem atingido uma maior estabilidade profissional e patrimonial, isso não significa necessariamente maior liberdade financeira. Pelo contrário. Uma grande parte continua a pagar as dívidas do crédito à habitação, apoia ainda os filhos que permanecem muito mais tempo economicamente dependentes, financiamos estudos superiores ou ajudam os jovens adultos a iniciarem a sua vida independente. Ao mesmo tempo reforçam-se as responsabilidades perante pais envelhecidos, seja através de acompanhamento às consultas, apoio financeiro, gestão de medicamentos, organização dos cuidados, transporte ou decisões relacionadas com dependência. É aquela geração que, muitas vezes, está literalmente no meio, e que tem mesmo de equilibrar a balança.
A expressão sandwich generation descreve esta realidade: adultos de meia-idade que simultaneamente cuidam dos filhos e dos pais. Esta combinação de responsabilidades familiares, profissionais e financeiras pode ter consequências relevantes no bem-estar, no tempo disponível e na sua saúde mental.
A acumulação de tarefas de cuidado em idade intermédia pode aumentar o stress, a sobrecarga e a dificuldade em conciliar trabalho e família, influenciando inclusivamente decisões sobre redução do horário de trabalho ou transição antecipada para a reforma (Lam et al., 2026; Spijker et al., 2025).
É também por isso que talvez devamos deixar de perguntar apenas o que a Geração X compra e começar a perguntar o que realmente esta geração procura?
Sabemos que ao longo da vida, as prioridades mudam. Aos 20 ou 30 anos, o futuro está frequentemente associado à conquista da carreira, da casa, família, reconhecimento, rendimento, experiências. Aos 50, a pergunta pode ser colocada de forma diferente: o que quero preservar? O que quero simplificar? Onde quero investir o meu tempo? O que quero continuar a fazer nos próximos vinte ou trinta anos? E, sobretudo, com que saúde física e mental, e com que autonomia?
A segurança financeira, a qualidade de vida, saúde, a autonomia, o tempo, as relações significativas e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal tendem a adquirir uma relevância crescente. A Geração X não tem toda os mesmos valores e não devemos fazer estereótipos geracionais. Muitas das diferenças atribuídas às gerações resultam, na realidade, da idade, do momento do ciclo de vida, da posição profissional ou do contexto socioeconómico. Ainda assim podemos identificar necessidades que se tornam particularmente visíveis nesta etapa da vida: simplificação, confiança, segurança, reconhecimento e controlo sobre as próprias decisões.
As empresas e os serviços deveriam naturalmente prestar atenção a este perfil. A Geração X não quer necessariamente mais produtos. Quer produtos e serviços que resolvam os seus problemas. Não precisa obrigatoriamente de mais informação. Precisa de informação que seja relevante, clara e utilizável. Não querem também perder tempo. E o tempo é um dos seus bens mais escassos. Uma aplicação digital que os obriga a percorrer dez passos para resolver um problema simples, uma linha telefónica que mantém o utilizador longos minutos em espera, um portal que exige sucessivas autenticações ou um serviço de saúde onde é necessário repetir a mesma informação a diferentes profissionais são exemplos de sistemas que acrescentam muita carga a pessoas que já gerem múltiplas responsabilidades e é um passo para desistirem destas soluções que não lhes resolvem quase de imediato os problemas.
Também é errado pensar nesta geração como tecnologicamente distante. Na União Europeia, a maioria dos adultos entre os 45 e os 64 anos utiliza regularmente canais digitais, incluindo comércio eletrónico. A questão não é saber se estas pessoas são digitais mas sim saber se os sistemas digitais são suficientemente claros, seguros, intuitivos e úteis. Uma pessoa pode utilizar diariamente aplicações bancárias e sentir dificuldade em navegar num portal de saúde particularmente complexo. Isto não é uma contradição mas uma questão de desenho dos sistemas.
A literacia em saúde torna-se central. A Geração X entra agora numa fase em que aumenta a importância da prevenção cardiovascular, do controlo metabólico, dos rastreios oncológicos, da saúde mental, da saúde músculo-esquelética, da menopausa, do sono, da alimentação, da atividade física e da gestão de fatores de risco. Simultaneamente, muitos dos seus membros começam a gerir não apenas a própria saúde, mas também a saúde dos pais, tornando-se cuidadores e, por vezes, dos filhos. Passam rapidamente de utilizadores do sistema a navegadores informais do sistema para toda a família. São uma espécie de gestores coletivos de vidas.
O acesso à informação não significa necessariamente compreender. Compreender também não significa conseguir utilizá-la. A verdadeira literacia em saúde exige que a pessoa consiga aceder aos recursos, compreender a informação disponível, avaliar a sua qualidade e utilizá-la para tomar decisões adequadas. Este princípio é especialmente importante numa geração permanentemente exposta a informação de saúde proveniente de múltiplas fontes: profissionais, redes sociais, aplicações, meios de comunicação, familiares, inteligência artificial e plataformas digitais.
Estudos recentes realizados em adultos com 45 ou mais anos mostram que intervenções estruturadas de literacia em saúde digital podem melhorar as competências, confiança e autoeficácia, especialmente quando combinam ferramentas digitais com apoio humano e aprendizagem adaptada às necessidades das pessoas (Gözüm et al., 2025; Sinanan et al., 2026). A evidência reforça uma ideia essencial: a transformação digital só melhora a saúde quando é acompanhada, de fato, por uma capacidade real e concreta, experienciada de acesso, compreensão e uso.
A resposta para a Geração X não pode, por isso, ser infantilizá-la, classificá-la prematuramente como “sénior” ou assumir que resiste à inovação. É uma geração que atravessou sucessivas mudanças e desenvolveu uma enorme capacidade de adaptação. Essa adaptação não significa aceitar a complexidade desnecessária.
O desafio para as organizações, para os empregadores, para as empresas, para as seguradoras, para os serviços públicos e para o sistema de saúde será criar respostas que respeitem esta maturidade. A geração X é matura, com uma carga pesada, com um conjunto de decisões que implica mais do que a eles próprios individualmente. Serviços simples. Comunicação clara. Canais digitais intuitivos. Atendimento humano quando necessário. Flexibilidade laboral para quem cuida. Programas de prevenção orientados para o percurso de vida da pessoa mais velha. Apoio à preparação do envelhecimento saudável. Navegação no sistema de saúde. Educação financeira e em saúde. Soluções que poupem tempo e que permitam tomar decisões informadas.
Talvez seja esta a grande mudança silenciosa da Geração X. Depois de décadas em que a vida foi construída em torno do trabalho, da família, da casa e das obrigações, começa a crescer uma aposta na valorização de outros ativos: tempo, saúde, autonomia, tranquilidade, relações e significado.
É a geração que continua a pagar a casa e as compras, que muitas vezes ajuda os filhos e começa a cuidar dos pais, que permanece ativa nas organizações e que está a preparar a sua própria longevidade. Não precisam de ser convencidos de que tudo é novo. Querem saber para que serve, se podem confiar, quanto custa e se aquilo que lhe propomos melhora efetivamente a sua vida.
Na saúde, essa resposta passa necessariamente pela literacia em saúde. Porque, à medida que aumenta a longevidade, não basta viver mais anos. É necessário garantir que as pessoas conseguem encontrar os recursos de que precisam, compreender as opções disponíveis e utilizar os serviços de forma autónoma, segura e informada. Para a Geração X, como para todas as gerações, melhorar o acesso, a compreensão e o uso dos recursos de saúde será uma das condições fundamentais para transformar longevidade em vida com qualidade.
