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Catástrofe climática que assola o país está a paralisar cuidados de saúde e a agravar riscos de saúde pública

No quadro de calamidade climática que tem afetado de forma especialmente grave algumas regiões de Portugal, o Conselho Português para a Saúde e o Ambiente (CPSA) alerta para duas consequências que têm recebido atenção insuficiente e para as quais a resposta tem sido claramente inadequada: o impacto nos serviços de saúde e os problemas de saúde pública decorrentes das inundações.

Luís Campos, médico e presidente do CPSA, refere que “Os efeitos nos serviços de saúde resultam de danos estruturais, falhas no abastecimento de água e eletricidade, dificuldades de acesso às unidades e insuficiência de profissionais, conduzindo à inoperância total ou parcial de múltiplos estabelecimentos de saúde.

Já os problemas de saúde pública associados às inundações fazem com que o número total de vítimas desta catástrofe seja seguramente muito superior ao das vítimas diretas reportadas pelos meios de comunicação social.

Entre as principais causas encontram-se a dificuldade de acesso a cuidados de saúde, os acidentes ocorridos durante ações de limpeza e reparação das habitações, bem como o aumento de doenças infeciosas de origem hídrica, doenças cutâneas, contaminações químicas e perturbações da saúde mental.

Entre os estabelecimentos de saúde afetados contam-se hospitais públicos e privados, centros de saúde, clínicas, unidades de exames complementares de diagnóstico, unidades de cuidados continuados, farmácias, centros de hemodiálise e postos de colheita de análises clínicas”.

A título exemplificativo, recenseamos algumas das situações:
• o Hospital da Figueira da Foz foi obrigado a encerrar o bloco operatório;
• no Hospital de Leiria registaram-se adiamentos de consultas e cirurgias, tendo
sido necessária a aquisição urgente de geradores por inexistência de capacidade suficiente;
• o Hospital CUF Leiria permaneceu encerrado durante vários dias;
• centros de saúde como os de Fátima e da Batalha ficaram sem água e sem eletricidade, obrigando à transferência de vacinas para hospitais;
• o centro de saúde de Alvaiázere ficou destruído;
• em alguns casos, o fornecimento de gasóleo foi priorizado para supermercados em detrimento de centros de saúde;
• quatro postos de colheita dos Laboratórios Germano de Sousa tiveram de encerrar;
• várias farmácias tornaram-se inacessíveis ou inoperacionais.
• Também os doentes em cuidados domiciliários foram significativamente afetados.

Face a este cenário, o CPSA recomenda que, em situações de catástrofes climáticas, sejam adotadas de forma imediata as seguintes medidas:
1. Realização de uma inventariação rápida e sistemática de todos os estabelecimentos de saúde com inoperabilidade total ou parcial, ou com dificuldades de acesso.
2. Implementação de planos de contingência robustos, a nível local, regional e nacional, que permitam identificar e priorizar as necessidades de cuidados das populações e dos doentes, incluindo os que se encontram em cuidados domiciliários, garantindo respostas adequadas e atempadas, que integrem os sectores público e privado do sistema de saúde, bem como orientações claras à população sobre eventuais alterações na referenciação.
3. Implementação rápida de medidas de saneamento, gestão ambiental e controlo integrado de pragas, incluindo a desobstrução das redes de drenagem e a redução de fontes de alimento e abrigo para roedores e insetos, de modo a minimizar os riscos acrescidos para a saúde pública.
4. Comunicação eficaz à população dos cuidados a adotar, incluindo as orientações da Direção-Geral da Saúde, utilizando canais e linguagens adequados a cada grupo populacional.
5. Monitorização sistemática dos problemas de saúde decorrentes das inundações, incluindo o número de vítimas indiretas, assegurando uma resposta eficaz e contínua por parte dos serviços de saúde.
O CPSA reafirma que a adaptação do sistema de saúde às alterações climáticas é uma prioridade de saúde pública e uma responsabilidade coletiva que não pode continuar a ser adiada.

Enquadramento nas previsões

As alterações climáticas estão a evoluir de acordo com os cenários mais pessimistas, traduzindo-se num aumento significativo do número, da frequência e da intensidade de catástrofes climáticas, como tempestades, inundações, secas, incêndios e episódios de temperaturas extremas.

Um relatório das Nações Unidas, publicado em 2020, estima que o número médio destes eventos extremos esteja a crescer a um ritmo superior a 3% ao ano e que, nos 20 anos anteriores, tenham causado 1,23 milhões de mortes e afetado mais de quatro mil milhões de pessoas, mais de metade das quais devido a inundações.

A catástrofe ambiental que tem recentemente assolado o continente ilustra de forma clara esta realidade, combinando inundações extensas com rajadas de vento de intensidade sem precedentes. As consequências desta situação configuram uma calamidade cujos impactos poderiam ter sido parcialmente prevenidos se medidas estruturais de planeamento, adaptação e prevenção não tivessem sido sistematicamente descuradas.

Terça-feira, 03 Fevereiro 2026 12:27


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