O cancro do endométrio está a aumentar em Portugal, acompanhando uma tendência observada a nível internacional, impulsionada sobretudo pelo envelhecimento da população, obesidade e doenças metabólicas. Esta é uma das principais conclusões do artigo “Current Perspectives on Endometrial Cancer in Portugal: Prevention, Diagnosis, Clinical Management, Challenges and Opportunities”, recentemente publicado na Revista da Sociedade Portuguesa de Oncologia.
Desenvolvido por um painel de especialistas nacionais em oncologia médica de centros de referência de Lisboa, Porto e Coimbra, o trabalho analisa a realidade portuguesa do cancro do endométrio e identifica oportunidades de melhoria ao longo da jornada da doente, desde a prevenção e diagnóstico até ao acesso à inovação terapêutica.
Entre as principais conclusões do artigo destaca-se a necessidade de reduzir atrasos nos diagnósticos, reforçar a literacia em saúde feminina e garantir uma utilização mais consistente da classificação molecular da doença, considerada atualmente essencial para uma abordagem personalizada ao tratamento.
Segundo os autores, apesar da elevada adesão dos centros portugueses às recomendações nacionais e internacionais para o tratamento do cancro do endométrio, persistem desafios significativos relacionados com: desigualdades no acesso a meios de diagnóstico; tempos de espera para exames e resultados anatomo-patológicos; acesso variável a testes moleculares; e atrasos no acesso a terapêuticas inovadoras.
O artigo evidencia, ainda, que biomarcadores como dMMR/MSI, alterações do p53 e mutações POLE assumem um papel crescente na orientação das decisões terapêuticas e no acesso a estratégias de medicina personalizada.
Os especialistas defendem, igualmente, o reforço da referenciação para aconselhamento genético em grupos de maior risco, a implementação de vias rápidas de diagnóstico (“fast-track pathways“), o fortalecimento das redes de referenciação e a expansão do acesso à inovação terapêutica.
“O cancro do endométrio representa um desafio crescente de saúde pública. Melhorar a deteção precoce, promover o acesso à caracterização molecular e garantir maior celeridade no acesso às terapêuticas inovadoras deverão constituir prioridades para o sistema de saúde nos próximos anos”, concluem os autores.
O trabalho termina com um conjunto de recomendações dirigidas a profissionais de saúde, decisores e autoridades de saúde, destacando a necessidade de uma resposta integrada para reduzir o impacto desta doença em Portugal.