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Especialistas alertam: Portugal precisa de um plano integrado para a saúde do cérebro

As doenças neurológicas e as perturbações mentais, quando consideradas em conjunto, ocupam a 2.ª posição em anos de vida saudável perdidos em Portugal, logo depois das neoplasias. Apesar deste peso, continuam a ser geridas por estruturas separadas, com diferentes níveis de planeamento, financiamento e representação de doentes.

É o que conclui o relatório Headway “Saúde do Cérebro em Portugal”, desenvolvido pela The European House – Ambrosetti em parceria com a Angelini Pharma. O documento aponta a capacidade de assegurar uma resposta clínica regular, articulada e sem interrupções como uma das prioridades para o país, identificando quatro barreiras concretas: a escassez de profissionais de saúde, a fragmentação dos percursos de cuidados, orientações clínicas desatualizadas e a ausência de bases de dados partilhadas e centralizadas entre centros especializados. Segundo o relatório, resolver estes constrangimentos permitiria reforçar a resposta do sistema de saúde, atenuar assimetrias regionais e favorecer práticas clínicas mais consistentes e suportadas por evidência.

“Falar de saúde do cérebro obriga-nos a olhar para a epilepsia como parte de um problema maior, com as mesmas barreiras de acesso e o mesmo estigma que a saúde mental”, afirma Nuno Canas, neurologista e presidente da Liga Portuguesa Contra a Epilepsia (LPCE). “Portugal dispõe de neurologistas e centros de referência, mas estes recursos não estão distribuídos de forma uniforme no território. Além disso, a inexistência de uma base de dados comum entre centros dificulta o acompanhamento consistente dos doentes, independentemente da região onde vivem. Estamos também entre os poucos países europeus sem uma associação de doentes dedicada à epilepsia, o que fragiliza a capacidade de dar voz a estes doentes junto dos decisores.”

O tema do Dia Mundial do Cérebro 2026, “Saúde do Cérebro: Acesso para Todos”, enquadra-se nesta discussão. No contexto nacional, o desafio passa menos pela inexistência de cuidados e mais pela capacidade de garantir seguimento regular: 44% dos doentes com epilepsia não têm acompanhamento médico regular. A este cenário soma-se a pressão sobre os recursos humanos, com 4,6 neurologistas e 13,6 psiquiatras por 100.000 habitantes, valores abaixo da média europeia. Nos cuidados de saúde primários, esta pressão torna-se particularmente visível.

“Os cuidados primários são o primeiro ponto de contacto para a esmagadora maioria das situações ligadas à saúde do cérebro. Perante esta realidade, e considerando o défice de recursos humanos existente na Neurologia e na Psiquiatria, mas também na Medicina Geral e Familiar, é ainda mais premente clarificar o percurso destes doentes”, explica Nuno Jacinto, médico de Medicina Geral e Familiar e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). “Protocolos clínicos atualizados e uma melhor circulação de informação entre níveis de cuidados ajudariam a melhorar a qualidade da resposta assistencial, otimizando a referenciação e encurtando o tempo até ao diagnóstico”, complementa.

O relatório Headway “Saúde do Cérebro em Portugal” defende a necessidade de uma estratégia nacional que aproxime a resposta às doenças neurológicas e às perturbações mentais sob uma governação mais articulada. O objetivo passa por garantir que os recursos existentes funcionam melhor em conjunto, com circuitos assistenciais mais claros, orientações clínicas atualizadas e informação partilhada entre centros.

Quinta-feira, 23 Julho 2026 16:44


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