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Febre amarela pode regressar à Europa? Estudo sobre epidemia de Lisboa em 1857 lança alerta

A febre amarela pode regressar à Europa — e Lisboa já foi palco de uma das epidemias mais devastadoras do continente.

Publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases, um estudo demonstra como a febre amarela pode emergir e propagar-se rapidamente em contextos urbanos europeus quando se combinam fatores ambientais e sociais, num cenário de crescente urbanização, mobilidade global e alterações climáticas — mesmo existindo vacina.

Com base em documentação histórica do arquivo da biblioteca do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa (IHMT NOVA), uma equipa internacional de investigadores, liderada pelo Medical Research Council Centre for Global Infectious Disease Analysis (Imperial College London) em colaboração com o centro de investigação (GHTM) do IHMT NOVA, reconstruiu em detalhe a epidemia de 1857, responsável por mais de 5.600 mortes na capital portuguesa.

A Prof. Doutora Ana Abecasis, do GHTM | IHMT NOVA, destaca que “O acesso e a análise de dados de surtos históricos, como os preservados no património documental do IHMT NOVA, permitem compreender padrões de propagação, os determinantes sociais de saúde envolvidos e antecipar riscos relevantes para a saúde pública atual.”

Um vírus do passado com condições do presente

A investigação revela que, no século XIX, o surto teve origem na chegada de navios provenientes do Brasil, transportando o mosquito Aedes aegypti, principal vetor urbano da febre amarela. Em poucas semanas, a doença espalhou-se a partir da zona portuária para o resto da cidade, evidenciando o seu elevado potencial de transmissão.

As áreas mais afetadas concentraram-se nas zonas ribeirinhas de Lisboa — particularmente em áreas densamente povoadas, de baixa altitude e com maior acumulação de água — condições ideais para a proliferação do mosquito.

O presente estudo mostra que a propagação da doença não dependeu apenas do ambiente, mas também de determinantes sociais de saúde. Fatores como a ocupação, o género, as condições de habitação e o acesso a cuidados de saúde influenciaram significativamente o risco de infeção e morte. Trabalhadores ligados ao porto estiveram entre os primeiros afetados, enquanto muitas mulheres — frequentemente em trabalho doméstico e com menor acesso a cuidados — apresentaram maior probabilidade de morrer em casa.

A investigação evidencia igualmente o papel dos espaços urbanos e sociais, como zonas de trabalho, alojamentos coletivos e locais de grande circulação, na amplificação da transmissão, mostrando que o risco não se limitava às habitações, mas estava distribuído pela dinâmica da cidade.

Atualmente, zonas costeiras e de baixa altitude na cidade de Lisboa continuam entre as mais vulneráveis devido a forte pressão urbana e turística, proximidade a pontos de entrada internacional, condições favoráveis à retenção de água em meio urbano e impacto crescente das alterações climáticas.

Paralelamente, mosquitos capazes de transmitir a febre amarela já foram identificados em território português, reforçando o alerta de que a doença poderia, em teoria, voltar a emergir em solo europeu.

Um risco que exige preparação

Apesar da existência de vacina, a febre amarela continua a ser endémica em várias regiões do mundo e não foi ainda erradicada. O Prof. Doutor Nuno Faria, investigador do Imperial College e líder deste trabalho de investigação, sublinha que “a epidemiologia — ciência que estuda a distribuição e os determinantes das doenças nas populações — ganha profundidade quando integrada com dados históricos, permitindo não só reconstruir padrões de transmissão passados, mas também antecipar riscos futuros com maior rigor.”

Este estudo sublinha a urgência de antecipar riscos em contextos urbanos europeus e evidencia o papel estratégico do IHMT NOVA na investigação em medicina tropical, contribuindo com conhecimento crucial para orientar respostas eficazes aos desafios contemporâneos da saúde global.

Sexta-feira, 10 Abril 2026 18:22


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