O projeto “saBeR mais ContA”, dedicado à sensibilização para a componente hereditária do cancro, lança um alerta para o crescimento do número de casos destes dois tipos em Portugal e no mundo. Estudos indicam que o número de diagnósticos de cancro da próstata poderá duplicar até 2040, enquanto para o cancro do pâncreas prevê-se um aumento de 12,29% no mesmo período1,2. Estes dados reforçam a necessidade do aconselhamento genético, da deteção precoce e do acompanhamento dos doentes3.
A nível mundial, o cancro da próstata é o segundo mais diagnosticado entre os homens, com mais de 1,4 milhões de novos casos por ano4, enquanto que o cancro do pâncreas tem 510 000 novos diagnósticos anuais, sendo um dos cancros mais mortais, com mais de 460 000 mortes por ano5,6.
Em Portugal, estima-se que surjam anualmente cerca de 7 500 novos casos de cancro da próstata e 2 000 de cancro do pâncreas7, refletindo o peso crescente destas doenças na saúde pública nacional.
Estudos recentes, estimam que o número global de diagnósticos de cancro da próstata poderão passar de 1,4 milhões para 2,9 milhões em 20401, enquanto que o cancro do pâncreas tem um aumento estimado de 12,29% no mesmo período2, com base em dados de 2020 e 2019 respetivamente.
A componente hereditária é um fator cada vez mais reconhecido: cerca de 5 a 15% dos cancros da próstata8 e 5 a 10% dos cancros do pâncreas têm origem genética9.
Entre as mutações mais relevantes encontram-se as dos genes BRCA1 e BRCA2 associadas ao risco aumentado de cancro da próstata10 e do pâncreas9.
O rastreio genético destes genes em famílias de risco pode permitir detetar precocemente a doença ou orientar estratégias preventivas mais eficazes3.

“O cancro da próstata é hoje um dos tumores mais frequentemente diagnosticado nos homens portugueses7. Além dos fatores ambientais, existe um peso genético importante que não deve ser ignorado: homens com história familiar direta têm risco duas a três vezes superior11. O rastreio dirigido e o aconselhamento genético são ferramentas fundamentais para reduzir o impacto da doença”, explica José Luís Passos Coelho, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO).
O envelhecimento populacional, o aumento da esperança média de vida e a persistência de fatores de risco modificáveis, como obesidade, tabagismo e consumo de álcool são apontados como causas diretas para o aumento das taxas de incidência5,12.
Contudo, a genética e a história familiar tornaram-se indicadores-chave para a prevenção e gestão do risco, justificando protocolos de vigilância e programas de rastreio específicos8,10.
“O cancro da próstata tem hoje uma taxa de sobrevivência elevada quando diagnosticado precocemente13. No entanto, muitos homens evitam procurar ajuda médica por receio de falar sobre sintomas urológicos, tais como a incontinência urinária, e pela possível alteração da função sexual. Precisamos de promover uma literacia em saúde mais robusta e normalizar o diálogo sobre a doença”, sublinha José Graça, Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Doentes da Próstata (APDP).
Além dos fatores clínicos, o estigma associado ao cancro da próstata continua a ser uma barreira importante ao diagnóstico precoce e ao acesso aos cuidados. Muitos homens evitam procurar ajuda médica por receio de falar sobre sintomas urológicos e pela possível alteração da função sexual, o que contribui para diagnósticos em fases mais avançadas da doença. Estudos mostram que o silêncio e a vergonha associados ao cancro da próstata impactam diretamente a adesão ao rastreio e ao acompanhamento médico, podendo comprometer a eficácia das estratégias de prevenção e tratamento. Campanhas de sensibilização direcionadas, educação em saúde e normalização do diálogo sobre a doença são fundamentais para reduzir este estigma e promover uma procura atempada de cuidados14,15.
No caso do cancro do pâncreas, a deteção em fases avançadas da doença compromete o prognóstico, reforçando a necessidade de maior vigilância e investimento em investigação2,6.
“O cancro do pâncreas, pela sua natureza silenciosa e agressiva, continua a ser diagnosticado tardiamente em muitos casos2. A componente hereditária é relevante, pelo que a identificação de mutações genéticas associadas ao cancro do pâncreas em familiares com doenças oncológicas poderá permitir o diagnóstico e a intervenção mais precoce nos familiares que partilhem essas mutações de risco e, assim, talvez salvar vidas”, acrescenta José Luís Passos Coelho.
Neste mês de novembro, o Projeto “saBeR mais ContA” alerta para estes dados e reforçam a importância de manter um acompanhamento médico regular e estilos de vida saudáveis que possam reduzir o risco destas doenças.
Referências
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