Apenas 44% dos portugueses sentem ter controlo total ou maioritário sobre a gestão da sua própria saúde, um valor significativamente inferior à média de 78% registada nos20 países abrangidos pelo STADA Health Report 2026. Este é um dos principais resultados do estudo que a STADA Portugal apresenta, colocando em debate os desafios do sistema de saúde português e o papel do autocuidado, da prevenção e da proximidade dos profissionais de saúde.
Realizado entre fevereiro e março de 2026, o inquérito reuniu 19.514 participantes, com idades entre os 18 e os 99 anos, em 20 países.
Satisfação com o sistema de saúde abaixo da média europeia
A satisfação dos portugueses com o sistema público de saúde situa-se nos 54%, abaixo da média de 56%dos países analisados. Embora represente uma recuperação face aos 49% registados em 2024, o indicador recuou quatro pontos percentuais relativamente a 2025, quando atingiu os 58%.
A perceção dos cidadãos varia significativamente em função da região e da idade. Na Grande Lisboa, apenas 40% dos inquiridos manifestam satisfação com o sistema de saúde, em contraste com 72% na região do Grande Porto e 67% no Litoral Norte. Os cidadãos entre os 18 e os 34 anos são também os menos satisfeitos (51%), seguindo-se os grupos dos 35 aos 54 anos (52%) e dos 55 ou mais anos (58%).
A escassez de profissionais de saúde, associada aos longos tempos de espera, é identificada como o principal desafio do sistema por 79% dos portugueses, face a 67% na amostra global. Seguem-se o envelhecimento da população e as doenças crónicas (70%, contra 56% na média global) e o aumento dos problemas de saúde mental (57%, face a 53%).
Quando questionados sobre as medidas que priorizariam para melhorar o sistema de saúde, 64% dos portugueses apontam a redução dos tempos de espera através do aumento do número de profissionais. O reforço do acesso aos cuidados de saúde primários surge em segundo lugar, referido por 57% dos inquiridos, enquanto 38% defendem salários mais justos e melhores condições de trabalho para os profissionais de saúde.
Os resultados evidenciam, assim, a importância que os cidadãos atribuem à capacidade de resposta do sistema, ao acesso atempado aos cuidados e à valorização dos profissionais.
Médicos e farmacêuticos são as principais referências nas decisões de saúde
A confiança nos profissionais de saúde assume particular relevância em Portugal. Os médicos de Medicina Geral e Familiar e outros profissionais de saúde influenciam as decisões relacionadas com a saúde de 90% dos inquiridos, acima dos 77% registados na amostra global. Os farmacêuticos são a segunda principal influência, com 71%, face a 57% na média dos países participantes.
Esta proximidade reflete-se também nas expectativas dos cidadãos relativamente ao futuro das farmácias. Quase metade dos portugueses (48%) gostaria que estas pudessem renovar receitas de medicamentos para doenças crónicas. Outros 38% defendem horários de funcionamento de 24 horas por dia, sete dias por semana, com consulta farmacêutica, enquanto 37% valorizam a possibilidade de receber aconselhamento personalizado com base no seu historial clínico.
Apesar do crescimento das soluções digitais, o contacto presencial continua a ser a opção preferida para diferentes serviços de saúde: 86% dos portugueses preferem o acesso presencial para rastreios e check-ups preventivos, 84% para consultas médicas e 63% para o atendimento farmacêutico.
Os dados apontam para a importância de modelos de prestação de cuidados que conciliem inovação e acessibilidade com a relação de confiança entre os cidadãos e os profissionais de saúde.
Autocuidado generalizado, mas com espaço para reforçar a prevenção
O estudo revela que a automedicação é uma prática generalizada: 93% dos inquiridos reportam recorrer à automedicação, sendo as constipações, as gripes e as dores ligeiras algumas das situações mais frequentes. Entre os motivos identificados em Portugal, os sintomas de constipação ou gripe destacam- se, referidos por 78% dos inquiridos, enquanto 39% apontam problemas gastrointestinais ligeiros.
Ao mesmo tempo, os portugueses demonstram abertura à adoção de hábitos mais saudáveis. Para viver mais e melhor, 85% afirmam estar dispostos a reduzir o consumo de açúcar e doces, 80% a reduzir o consumo de fast food e a limitar o tempo de ecrã, e 69% a reduzir o consumo de álcool.
A prevenção surge também entre as prioridades de utilização de recursos adicionais: perante a possibilidade de dispor de mais 100 euros por mês para investir na saúde, 34% escolheriam poupar para futuras despesas médicas e 28% investiriam em check-ups preventivos ou rastreios. A saúde mental e o bem-estar seriam a prioridade para 18%.
Ainda assim, apenas 33% dos portugueses identificam o reforço dos cuidados preventivos como umadas três principais medidas que adotariam para melhorar o sistema de saúde. Esta diferença entre a disponibilidade individual para mudar hábitos e a prioridade atribuída à prevenção nas políticas de saúde constitui um dos temas relevantes para o debate sobre a capacitação dos cidadãos.
A confiança na educação para a saúde é igualmente clara: 81% dos portugueses consideram que os profissionais de saúde devem assumir a liderança nesta área, face a 68% na amostra global. Escolas e universidades (58%) e familiares (52%) são outras fontes apontadas pelos inquiridos.
Inteligência artificial na saúde: oportunidade e confiança caminham lado a lado
A utilização da inteligência artificial (IA) na saúde começa também a integrar as práticas e expectativas dos portugueses. Três em cada dez inquiridos (30%) afirmam recorrer à IA para compreender melhor um diagnóstico recebido, enquanto 22% a utilizam para fins preventivos, nomeadamente para obter recomendações sobre estilo de vida, alimentação e exercício físico.
Mais de metade (51%) consideraria receber aconselhamento de IA em vez de consultar um médico, um aumento face aos 35% registados em 2025. No entanto, esta abertura é acompanhada por preocupações: 61% receiam erros ou diagnósticos incorretos, 46% temem que os seus dados de saúde sejam utilizados sem o seu conhecimento e 43% receiam uma redução da interação humana.
Os resultados sugerem que o desenvolvimento de soluções digitais na saúde deverá ter em conta não apenas o seu potencial para melhorar o acesso à informação e acelerar diagnósticos, mas também a proteção dos dados pessoais, a fiabilidade das ferramentas e a manutenção da relação humana nos cuidados de saúde.
Preparar o futuro da saúde exige capacitar os cidadãos
O STADA Health Report 2026 oferece uma perspetiva sobre as expectativas, preocupações e comportamentos dos cidadãos relativamente à saúde. Em Portugal, os resultados colocam em evidência desafios que vão além da capacidade de resposta do sistema: a necessidade de reforçar a confiança e a autonomia dos cidadãos, promover a prevenção e valorizar o papel dos profissionais de saúde na orientação das decisões individuais.
A apresentação dos resultados nacionais pretende contribuir para uma reflexão conjunta entre os diferentes intervenientes do setor, aproximando as perspetivas dos profissionais, das instituições e dos cidadãos sobre o futuro dos cuidados de saúde.