No encerramento das Break Talks, José Queiroz, psicólogo na Agência Piaget para o Desenvolvimento (APDES), faz um balanço positivo da iniciativa, defendendo a urgência de uma abordagem multissetorial. O especialista alerta para a necessidade de equilibrar o mediatismo das novas adições virtuais com o apoio contínuo a milhares de consumidores crónicos de heroína e cocaína. Como solução, propõe uma gestão comunitária e descentralizada, avisando que o sucesso do modelo exige, obrigatoriamente, um reforço urgente do orçamento do Estado. Assista à entrevista.
José Queiroz destacou que a partilha entre profissionais trouxe uma consciência acrescida para a necessidade de articular a saúde com áreas como a habitação e a segurança social. Avisou, contudo, que a visibilidade pública de novas dependências sem substância não pode fazer o país esquecer os consumos clássicos, estimando que restam entre 30 a 50 mil pessoas altamente vulneráveis em Portugal que necessitam de apoio diário. A tentativa de acompanhar as novas modas digitais “não nos pode fazer esquecer destas tendências antigas que vêm desde os finais dos anos 70, 80 e que ainda se mantêm”, frisou.
Para passar à ação com medidas que exigem sobretudo uma mudança de mentalidade, recomendou a inclusão de “educadores de pares” nas equipas no terreno e a criação de assembleias comunitárias locais para desenhar as respostas. Desafiou ainda o ICAD a promover um diálogo horizontal entre o Estado e a sociedade civil, pondo fim à verticalidade das decisões. No seu entender, “são os desenhos estratégicos, são as políticas que se devem ajustar à realidade e ao sofrimento das pessoas, de forma a que possamos cuidar desse mesmo sofrimento”, rejeitando modelos que queiram impor visões de gabinete à realidade quotidiana.
Como maior constrangimento do setor, o especialista apontou a urgência de um orçamento robusto para contratar mais profissionais e adquirir equipamentos, face à complexidade e amplitude que o fenómeno ganhou nos últimos anos.
