PUB

 

APDP: um século ao serviço da diabetes

O presidente da Fundação Ernesto Roma, Luís Gardete Correia, enquadra as comemorações do centenário da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP) como um momento de memória, mas sobretudo de projeção estratégica. Ao assinalar um século de história desde a sua fundação, em 1926, a instituição reforça o seu papel na linha da frente da literacia e do acesso à inovação, anunciando como meta prioritária a criação de um Instituto de Prevenção da Diabetes. Este novo fôlego institucional, que conjuga a celebração do passado com a influência nas políticas públicas, será assinalado ao longo de 2026 com iniciativas que incluem uma sessão solene na Assembleia da República, um documentário televisivo e o lançamento de um prémio de jornalismo.

Fundada a 3 de maio de 1926 por Ernesto Roma, médico natural de Viana do Castelo, a então Associação Protetora dos Diabéticos Pobres nasceu num contexto em que a descoberta da insulina tinha alterado radicalmente o prognóstico da doença, mas permanecia inacessível a muitos doentes.

Segundo Luís Gardete Correia, Ernesto Roma contactou com a realidade norte-americana numa fase imediatamente posterior à introdução clínica da insulina. Perante o impacto terapêutico (que retirou a diabetes tipo 1 do domínio quase fatal), regressou a Portugal determinado a garantir acesso ao tratamento para quem não o podia pagar. O objetivo inicial era claro: disponibilizar insulina às pessoas economicamente desfavorecidas. Rapidamente se tornou, contudo, evidente que a terapêutica isolada era insuficiente.

A associação evoluiu, assim, para um modelo integrado, centrado na educação terapêutica e no acompanhamento continuado. Como sublinha o presidente da Fundação Ernesto Roma, “fornecer insulina era muito pouco: era necessário educar e acompanhar as pessoas ao longo da vida”. A abordagem precoce à literacia em saúde e à prevenção de complicações tornou-se, desde então, uma marca identitária da instituição.

Em 1973, num momento crítico, a visita do então ministro da Saúde, Baltazar Rebelo de Sousa, representou um ponto de viragem institucional. A designação foi alterada para Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, refletindo uma missão alargada e um reconhecimento nacional.

Ao revisitar o século de história da diabetes, Luís Gardete Correia identifica como marcos estruturantes a descoberta da insulina, a evolução dos esquemas terapêuticos e o desenvolvimento dos meios de autocontrolo. Se nas primeiras décadas os doentes dependiam de múltiplas administrações diárias de insulina de ação rápida, hoje dispõem de análogos de ação prolongada, bombas de insulina inteligentes e sistemas de monitorização contínua da glicose.

O presidente da Fundação Ernesto Roma destaca ainda a introdução da hemoglobina A1c como instrumento fundamental de avaliação metabólica e a redução significativa das complicações crónicas. O impacto cumulativo da inovação terapêutica traduziu-se numa transformação profunda do prognóstico: “a esperança média de vida de quem tem diabetes aproxima-se hoje da população sem diabetes”.

Paralelamente, nas últimas décadas assistiu-se ao crescimento exponencial da diabetes tipo 2, fenómeno associado a alterações demográficas e comportamentais. Este contexto reforça, no entender do responsável, a necessidade de políticas públicas integradas.

A prevenção no centro

Enquanto associação, a APDP mantém uma intervenção ativa junto da Assembleia da República e do Ministério da Saúde. A instituição é regularmente ouvida sobre matérias relacionadas com políticas de acesso, financiamento e organização dos cuidados. A prioridade atual incide na acessibilidade a novos fármacos e tecnologias, incluindo terapias celulares e medicamentos com potencial preventivo na diabetes tipo 1.

Luís Gardete Correia sublinha a importância de integrar estas inovações no Plano Nacional de Saúde, garantindo equidade no acesso. Ao mesmo tempo, defende que a resposta não pode centrar-se exclusivamente no tratamento.

Entre as metas estratégicas para os próximos anos figura a criação de um Instituto de Prevenção da Diabetes, com enfoque na identificação precoce da pré-diabetes e na promoção de estilos de vida saudáveis. A proposta encontra-se em fase de negociação com as autoridades e poderá vir a instalar-se num edifício situado no Parque de Saúde de Lisboa. O projeto prevê o desenvolvimento de programas estruturados de exercício físico, promoção da alimentação saudável e intervenção comunitária de âmbito nacional.

Para o presidente da Fundação Ernesto Roma, a prevenção constitui o verdadeiro desafio estrutural. “Falamos muito de tratamento, mas é na prevenção que precisamos de estar na linha da frente”, afirma. A evidência acumulada demonstra que a diabetes tipo 2 é amplamente prevenível e que existem já abordagens farmacológicas com potencial modificador na diabetes tipo 1.

Celebrar um século

Ao completar um século, a APDP reafirma, assim, a sua vocação fundadora: conjugar ciência, proximidade e intervenção cívica. As celebrações do centenário incluem um conjunto diversificado de iniciativas. Entre elas destaca-se o lançamento de um prémio anual de jornalismo na área da diabetes, no valor de cinco mil euros. Dirigido a profissionais que não se dediquem exclusivamente a temas médicos, o galardão pretende estimular a abordagem qualificada da diabetes nos meios generalistas e reforçar a literacia junto da população. O regulamento será divulgado brevemente e a candidatura estará aberta a trabalhos em qualquer plataforma.

Está também em preparação um livro que revisita a história da diabetes ao longo dos séculos, com particular enfoque no percurso da APDP. O lançamento está previsto para maio. Paralelamente, será exibido na RTP2 um documentário em cinco episódios que conjuga enquadramento histórico, evolução científica e testemunhos de profissionais e colaboradores ligados à instituição.

No plano institucional, a 13 de maio realiza-se uma sessão solene na Assembleia da República, com a participação de diversas personalidades nacionais e internacionais da área da diabetes. O programa integra intervenções do presidente da APDP, José Manuel Boavida, e de representantes da Federação Internacional da Diabetes. A instituição prevê ainda iniciativas internas de coesão organizacional, bem como ações integradas no Congresso Nacional de Diabetes e uma corrida comemorativa no final do ano.

Terça-feira, 10 Março 2026 11:53


PUB