Os resultados da 1.ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior de 2026 deixam uma mensagem que merece ser lida para além das notas de entrada: Enfermagem continua a ser um curso procurado e socialmente valorizado. A procura não está apenas nas instituições do litoral ou nas escolas com maior tradição, uma vez que o curso mantém uma atratividade transversal e uma imagem de profissão com futuro.
Essa perceção é sustentada pelos dados de empregabilidade dos enfermeiros recém-licenciados, embora questões relevantes continuem a ser dimensões fundamentais para avaliar a qualidade dessa empregabilidade.
Há, contudo, outra questão que merece ser colocada no centro deste debate. O ensino superior público não absorve toda a procura existente por Enfermagem. Em 2026, as instituições públicas disponibilizaram 1.993 vagas, enquanto o ensino privado e cooperativo disponibiliza 972, correspondendo aproximadamente a 33% da oferta total nacional.
Este peso do ensino privado não deve ser encarado como um elemento periférico. É uma componente relevante da capacidade formativa nacional em Enfermagem. Num país que precisa de mais enfermeiros, a existência de uma rede diversificada de instituições de ensino superior, públicas e privadas, contribui para aumentar a capacidade de formação e evitar que jovens que pretendem seguir esta profissão sejam simplesmente afastados do ensino superior por insuficiência de oferta pública. A questão merece ainda mais atenção quando analisada à luz dos dados internacionais.
Os dados da OCDE indicam que Portugal deveria ocupar um lugar central no debate público. No Country Health Profile 2025 é referido que Portugal formou, em 2023, apenas 28 novos enfermeiros por 100 mil habitantes, face a 44 na média dos países da OCDE e, 31 para os países da União Europeia. Estamos, portanto, abaixo da média europeia e da OCDE. Esta organização assinala, ainda, que o número de diplomados caiu desde 2010 e só mais recentemente estabilizou.
Esta realidade cria uma aparente contradição que devemos transformar numa prioridade política: Enfermagem é procurada pelos estudantes, apresenta elevada empregabilidade e, simultaneamente, Portugal forma menos enfermeiros do que seria desejável face aos seus parceiros europeus. Não parece sensato responder a este problema reduzindo a importância do ensino privado ou deixando por aproveitar capacidade formativa existente. Pelo contrário, a capacidade de todas as instituições acreditadas deve ser enquadrada numa estratégia nacional de formação, qualidade e retenção de profissionais.
Mas formar mais enfermeiros não basta. É necessário utilizar melhor os enfermeiros que já temos.
Esta é, em particular, uma questão decisiva nos cuidados de saúde primários, que continuam organizados em torno de fluxos de trabalho, que concentram nos médicos, cuidados que podem ser partilhados ou assumidos por outros profissionais com competência específica. Os enfermeiros de família podem e devem assumir um conjunto mais amplo de cuidados, em complementaridade com os médicos de família, farmacêuticos, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais, tão necessários na porta de entrada do SNS.
O exemplo da vigilância da gravidez de baixo risco obstétrico é particularmente relevante, uma vez que o desenho de modelos em que os enfermeiros especialistas em Saúde Materna e Obstétrica assumem maior responsabilidade, articulando com os médicos e garantindo a referenciação quando necessário, demonstra que a discussão não precisa de ser apresentada como substituição profissional. Deve ser colocada em termos de complementaridade, competências e organização do trabalho.
É esta mudança de paradigma que precisamos de levar aos restantes cuidados de saúde primários. A intervenção mais diferenciada no acompanhamento de pessoas com doença crónica estável, a vigilância oncológica, a saúde sexual e reprodutiva, os cuidados domiciliários e a intervenção continuada junto de cuidadores familiares são exemplos de áreas em que os enfermeiros de família podem ter responsabilidades acrescidas.
Se queremos responder ao envelhecimento da população, à multimorbilidade e à escassez de profissionais, não podemos continuar a organizar o trabalho de saúde segundo modelos desenhados para outra(s) realidade(s).
Portugal necessita de formar mais enfermeiros, valorizar a capacidade formativa pública e privada e, sobretudo, redesenhar os processos de trabalho para aproveitar plenamente as competências desses profissionais. A elevada procura pelo curso é uma boa notícia para os jovens. A elevada empregabilidade é uma boa notícia para o país. Mas a verdadeira oportunidade está em transformar essas duas realidades numa estratégia para um SNS mais acessível, mais eficiente e mais sustentável.
