O projeto partiu de uma questão central das neurociências cognitivas: de que forma o cérebro constrói a experiência do “eu” durante a comunicação vocal. Como explicou Ana Pinheiro à News Farma, embora reconhecer que fomos nós a falar e identificar a voz como sendo nossa pareçam experiências inseparáveis, tratam-se de processos distintos, designados por sentido de agência e sentido de pertença (ownership). Compreender estes mecanismos é essencial para perceber como o cérebro distingue aquilo que é gerado pelas nossas próprias ações daquilo que tem origem no exterior.
Ao longo da investigação, a equipa demonstrou precisamente que estes dois processos não dependem do mesmo mecanismo cerebral. Em declarações à News Farma, Ana Pinheiro revelou que esta foi a maior surpresa do projeto, contrariando a ideia dominante de que ambas as experiências resultariam do mesmo processo neurocognitivo. Os resultados mostram que o cérebro processa separadamente a informação que permite concluir “fui eu que falei” e aquela que permite reconhecer “esta é a minha voz”, sugerindo que a construção desta experiência decorre de forma gradual e através de mecanismos especializados.
Questionada sobre a relevância clínica destas conclusões, a investigadora considera que os resultados oferecem um novo enquadramento para compreender doenças como a esquizofrenia. Segundo explicou, nas alucinações auditivas uma das hipóteses mais aceites é que o cérebro atribui a pensamentos ou representações internas uma origem externa, fazendo com que sejam experienciados como vozes de outras pessoas. Ao demonstrar que o sentido de agência e o sentido de pertença dependem de mecanismos distintos, este trabalho permitirá investigar de forma mais precisa quais destes processos poderão estar alterados em diferentes doentes, contribuindo, no futuro, para modelos de diagnóstico e intervenção mais eficazes.
Para Ana Pinheiro, o apoio da Fundação Bial foi determinante para tornar possível uma investigação desta complexidade. A investigadora explica que o financiamento permitiu desenvolver paradigmas experimentais inovadores e reunir uma equipa multidisciplinar capaz de estudar processos neurocognitivos que decorrem em apenas alguns milissegundos, criando as condições necessárias para aprofundar o conhecimento sobre a forma como o cérebro constrói a experiência do “eu”.
O trabalho abre agora novas linhas de investigação. A equipa pretende compreender como estas diferentes dimensões do “self vocal” evoluem ao longo da vida, desde a infância ao envelhecimento, e de que forma podem ser alteradas em diversas perturbações neurológicas e psiquiátricas. A longo prazo, este conhecimento poderá contribuir para compreender melhor como o cérebro mantém uma representação estável da própria voz, mesmo quando esta se modifica ao longo dos anos.
A Fundação Bial tem aberto novo programa de Apoios a Projetos de Investigação Científica nas áreas da Psicofisiologia e da Parapsicologia, com o objetivo de incentivar o estudo científico do ser humano, tanto do ponto de vista físico como espiritual. O regulamento e a documentação do programa estão disponíveis aqui. As candidaturas vão estar abertas até 31 de agosto de 2026.
