A neurociência da religião e a neurociência da meditação desenvolveram-se, ao longo das últimas décadas, em caminhos paralelos. “A neurociência da religião/espiritualidade e a neurociência da meditação desenvolveram-se, em larga medida, em paralelo, mas raramente se cruzaram numa comparação direta e controlada”, começou por explicar Paulo Dias. O investigador salientou que o trabalho se inscreve no paradigma científico atual, o qual rejeita a ideia de que exista “um ‘ponto de Deus’ no cérebro”, entendendo antes estes fenómenos como emergentes de “redes cerebrais de uso geral”, associadas à atenção, controlo executivo e processamento de si próprio.
Um dos aspetos que mais impressionou a equipa foi a rapidez com que os efeitos se manifestaram na função cerebral. O docente da UCP confessou que a equipa teve “alguma surpresa sobre o efeito da prática num espaço tão curto”, subsistindo a dúvida sobre se seria notória “uma diferença funcional ou estrutural numa intervenção com um intervalo de tempo de cinco dias”. Contudo, a descoberta mais inesperada residiu na modulação em sentidos opostos da mesma rede cerebral. “Seria plausível supor que duas práticas contemplativas intensivas empurrassem a função cerebral na mesma direção. Aconteceu o contrário”, destacou. Na Rede Frontoestriada, associada ao controlo executivo, a conetividade funcional “aumentou no grupo que realizou mindfulness e diminuiu no grupo que realizou exercícios espirituais”, revelando “uma dissociação clara entre as duas práticas”. Curiosamente, a Rede de Modo Padrão (Default Mode Network), habitualmente tida como a “‘assinatura’ da meditação”, não mostrou uma interação significativa.
Apesar do curto período da intervenção, a equipa observou aumentos de densidade de substância cinzenta no córtex insular, no giro frontal inferior e no polo temporal. Interrogado sobre o impacto prático destas alterações no quotidiano de uma pessoa saudável, Paulo Dias frisou que “convém ser rigoroso quanto ao que os dados permitem afirmar”, lembrando que o estudo não mediu diretamente desfechos comportamentais. No entanto, o especialista admitiu ser plausível que o reforço desta “‘infraestrutura’ possa favorecer, no quotidiano de uma pessoa saudável, uma melhor consciência de si, mais equilíbrio emocional e melhor gestão do stress“. Ainda assim, reforçou que “confirmar um “impacto real” no quotidiano exigirá estudos que meçam explicitamente comportamento e experiência subjetiva”.
Para viabilizar uma investigação com este nível de exigência logística e financeira, o apoio da Fundação Bial revelou-se “essencial”. O investigador explicou que a Fundação possui uma “vocação temática que se ajusta a um trabalho interdisciplinar e de maior risco exploratório como este, que outras linhas de financiamento mais convencionais poderiam não priorizar”, permitindo realizar exames de ressonância magnética 3T em múltiplos momentos e coordenar retiros com facilitadores especializados.
Perspetivando o futuro, o docente da UCP adiantou que o estudo abre portas a vários caminhos, com destaque para a área clínica. “Se o mindfulness fortalece o controlo executivo e a oração inaciana favorece um estado mais recetivo, torna-se possível pensar em adequar diferentes práticas contemplativas a diferentes objetivos e populações”, concluiu Paulo Dias, antecipando uma aproximação cada vez maior entre a neurociência e o estudo da experiência religiosa e espiritual.
A Fundação Bial tem aberto novo programa de Apoios a Projetos de Investigação Científica nas áreas da Psicofisiologia e da Parapsicologia, com o objetivo de incentivar o estudo científico do ser humano, tanto do ponto de vista físico como espiritual. O regulamento e a documentação do programa estão disponíveis aqui. As candidaturas vão estar abertas até 31 de agosto de 2026.
