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O cancro do pulmão ainda se descobre tarde demais

A maioria dos casos de cancro do pulmão é ainda diagnosticada em fases avançadas, limitando as hipóteses de sucesso. Fernanda Gouveia, médica especialista em Medicina Geral e Familiar no Grupo TrueClinic, explica por que razão o rastreio e a mudança de comportamentos são as nossas ferramentas mais poderosas para mudar esta estatística.

Leia o artigo de opinião.

Como médica, acompanho doentes cuja luta contra o cancro do pulmão começou tarde demais. A maioria dos casos é diagnosticada quando já existem sintomas significativos, momento em que as possibilidades de cura diminuem substancialmente. Por isso, mais do que nunca, precisamos de reforçar uma mensagem simples e essencial: a prevenção e o rastreio são as nossas melhores ferramentas.

O combate ao cancro do pulmão começa muito antes do diagnóstico. Começa na informação rigorosa, no diálogo aberto entre médico e doente, na atenção aos sinais discretos que muitas vezes passam despercebidos e na adoção de comportamentos que reduzam o risco. Falo, naturalmente, da cessação tabágica – a intervenção mais eficaz para prevenir esta doença. Apoiar quem fuma, esclarecer, acompanhar e oferecer estratégias realistas para abandonar o tabaco é parte fundamental da nossa missão clínica. Ninguém deve enfrentar esse processo sozinho, e cada pequena vitória conta.

Outra peça decisiva é o rastreio precoce através de técnicas como a tomografia computorizada, que permite detetar lesões em fases iniciais, quando ainda são tratáveis com intenção curativa. A evidência científica é consistente: identificar precocemente salva vidas.

Mas a prevenção não se limita ao risco tabágico ou ao rastreio. Inclui também promover hábitos de vida saudáveis, reduzir a exposição a ambientes poluídos, valorizar sintomas persistentes – como tosse que não passa, cansaço extremo ou alterações respiratórias – e manter consultas periódicas de acompanhamento. A proximidade entre médico e doente é um dos pilares para que estas mensagens se transformem em ações concretas.

É igualmente importante combater a ideia de que o cancro do pulmão é uma doença distante ou inevitável. Pelo contrário: é uma doença em que o fator tempo tem um peso enorme, e cada mês, cada semana ou até cada exame feito no momento certo pode alterar o desfecho.

Portugal tem todas as condições para continuar a melhorar na deteção precoce e tratamento desta doença. A ciência oferece-nos ferramentas cada vez mais eficazes; cabe-nos, como profissionais de saúde e como sociedade, utilizá-las com responsabilidade e antecipação. A prevenção não é apenas um conceito: é um compromisso que assumimos com cada pessoa que nos procura.

O cancro do pulmão ainda se descobre tarde demais. Ao reforçarmos a informação, o acompanhamento médico regular e a aposta na cessação tabágica e no rastreio, estamos a evitar situações mais graves e, por vezes, irreversíveis.

Domingo, 28 Dezembro 2025 19:08


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