Como cirurgiã dedicada ao tratamento do cancro da mama, aprendi que as grandes transformações tecnológicas só fazem sentido quando resolvem problemas profundamente humanos. Se conseguirmos usar esta revolução tecnológica para reduzir sofrimento, melhorar decisões, diminuir desigualdades e devolver às pessoas maior controlo sobre as suas vidas, então talvez estejamos perante uma das maiores oportunidades da nossa geração.
Vivemos um impressionante momento de transformação. A inteligência artificial entrou nas nossas vidas quase sem pedir licença: responde a perguntas, escreve textos, traduz línguas, ajuda estudantes, programadores, gestores e médicos. Ao mesmo tempo, desperta entusiasmo e receio, sobretudo no campo da saúde. Afinal, estamos perante uma tecnologia que nos ajudará a viver melhor ou perante uma força que nos tornará dispensáveis, e que também erra, mas em silêncio?
Como cirurgiã dedicada ao tratamento do cancro da mama, aprendi que as grandes transformações tecnológicas só fazem sentido quando resolvem problemas profundamente humanos. Foi esse objetivo que me fez enveredar pela carreira de investigação. Um dos maiores equívocos atuais é pensar que a IA veio substituir pessoas. Na realidade, a sua maior promessa pode estar precisamente no contrário: ajudar-nos a ser mais humanos.
Imaginemos uma mulher de 45 anos que acaba de receber um diagnóstico de cancro da mama. Em poucas horas, entra num mundo desconhecido, repleto de palavras difíceis, exames, opiniões
médicas e decisões que terão impacto para o resto da vida. Que cirurgia me vão fazer? Quais serão as consequências físicas, emocionais e familiares? Como ficará o meu corpo? Como me sentirei daqui a um ano?
A medicina moderna oferece hoje múltiplas possibilidades terapêuticas, mas mais opções nem sempre significam maior tranquilidade. Pelo contrário: podem gerar ansiedade, indecisão e medo. Muitas vezes, o maior sofrimento não resulta apenas da doença, mas da incerteza.
Nestas situações a abordagem tradicional baseia-se apenas na nossa experiência, o que é muito pouco tranquilizador, já que a visualização do resultado esperado é extremamente difícil tendo em consideração os fatores envolvidos na equação, que vão desde as características individuais à própria experiência do cirurgião.
É precisamente aqui que a IA pode ter um papel transformador. Na área do cancro da mama, temos vindo a trabalhar em ferramentas que utilizam IA para apoiar a tomada de decisão clínica.
O objetivo não é decidir pela doente nem substituir o médico. O objetivo é diferente: ajudar a compreender melhor as consequências possíveis de cada opção terapêutica e alinhar expectativas com resultados.
Imaginem poder visualizar, de forma personalizada, como o corpo poderá evoluir após diferentes tratamentos. Imaginem compreender, numa linguagem simples, riscos e benefícios que normalmente são difíceis de explicar numa consulta médica limitada no tempo. Mas aqui é importante fazer uma distinção essencial. A IA não é inteligência humana.
Um sistema de IA pode reconhecer padrões extraordinariamente complexos, processar milhões de dados e gerar respostas plausíveis em segundos. Porém, não sente medo, não compreende sofrimento, não percebe ironia, não tem consciência moral nem experiência vivida. E, sobretudo, pode errar – às vezes com grande convicção.
Quem usa estas ferramentas sem espírito crítico corre o risco de aceitar como verdade algo que pode estar errado. A literacia digital torna-se, por isso, uma competência fundamental do século XXI.
A IA não é uma fonte absoluta de verdade. Deve ser vista como uma ajuda, não como uma decisão isolada e inquestionável. Há riscos reais relacionados com privacidade e proteção de dados e na saúde, em particular, é fundamental garantir que a informação clínica é protegida, anonimizada e usada de forma ética e transparente.
Os algoritmos podem reproduzir enviesamentos existentes na sociedade. Se os dados de treino forem limitados ou pouco representativos, a IA poderá beneficiar alguns grupos mais do que outros, agravando desigualdades já existentes.
No entanto, se os riscos existem, o potencial transformador não pode ser ignorado. Nos próximos anos, a IA poderá democratizar conhecimento especializado de uma forma sem precedentes. Pessoas que hoje têm menor acesso à informação poderão beneficiar de explicações mais claras, apoio personalizado e aprendizagem contínua.
Na medicina, acredito profundamente que a IA não substituirá os médicos, mas os que souberem trabalhar com IA poderão oferecer melhores cuidados do que aqueles que a ignorarem. Ainda assim, importa reconhecer que em saúde há dimensões profundamente humanas que nenhuma tecnologia deverá substituir.
Quando uma mulher recebe um diagnóstico de cancro, não procura apenas dados ou probabilidades. Procura confiança, segurança, escuta e humanidade. Procura alguém que compreenda os seus medos e a ajude a tomar decisões alinhadas com os seus valores.
A decisão final sobre um tratamento não pode ser um cálculo matemático. É um equilíbrio delicado entre ciência, contexto de vida, identidade, esperança e medo.
A melhor medicina continuará a ser uma combinação entre evidência científica e relação humana. Talvez o verdadeiro desafio do futuro não seja tecnológico, mas ético e cultural: como usar ferramentas extraordinariamente poderosas sem perder aquilo que nos torna humanos? A resposta poderá estar numa mudança de perspetiva. Como pode a IA ajudar-nos a cuidar melhor uns dos outros?
Se conseguirmos usar esta revolução tecnológica para reduzir sofrimento, melhorar decisões, diminuir desigualdades e devolver às pessoas maior controlo sobre as suas vidas, então talvez estejamos perante uma das maiores oportunidades da nossa geração.
Não acho que a medicina do futuro tenda a ser menos humana. Se fizermos as escolhas certas, será finalmente mais personalizada, mais participativa e, por isso, mais humana do que nunca.
Quando a inteligência artificial ajuda a decidir o que importa
A inteligência artificial pode prever resultados cirúrgicos e processar milhões de dados em segundos, mas não sente medo, não compreende a dor e não tem consciência moral. Como diretora do Programa de Investigação em Cancro da Mama da Fundação Champalimaud, Maria João Cardoso explica por que razão o futuro da tecnologia médica não passa por substituir os médicos, mas por torná-los capazes de praticar uma medicina mais personalizada, participativa e humana do que nunca.

Quarta-feira, 14 Outubro 2026 15:31
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