Há doenças que avisam. Outras quase não dão sinais. No caso dos rins, a ausência de sintomas pode criar uma falsa sensação de segurança. É por isso que alterações persistentes nas análises não devem ser ignoradas, mesmo quando nos sentimos perfeitamente saudáveis.
Imagine uma mulher de 30 anos. É saudável, não tem diabetes, hipertensão ou excesso de peso. Faz exercício, trabalha e raramente vai ao médico. Num exame de rotina, surgem duas alterações: proteínas e sangue na urina.
Não sente dores, febre, inchaço ou qualquer outro sintoma. Como se sente bem, é fácil desvalorizar. E os anos passam.
A história é fictícia, mas situações semelhantes são frequentes nas consultas de Nefrologia. Algumas doenças renais podem evoluir durante bastante tempo sem causar sintomas evidentes. É, talvez, uma das características mais traiçoeiras do rim: quando começa a perder função, nem sempre o corpo nos avisa.
Os rins trabalham continuamente. Filtram o sangue, eliminam produtos tóxicos, regulam a quantidade de água e de sais minerais no organismo e participam no controlo da pressão arterial. São funções essenciais, mas que damos por adquiridas enquanto tudo parece estar bem.
A doença renal crónica é comum e estima-se que afete mais de 10% da população portuguesa1. As causas mais conhecidas incluem a diabetes, a hipertensão arterial e a obesidade. Existem, no entanto, outras doenças que afetam diretamente o rim, incluindo doenças inflamatórias, autoimunes e genéticas e, entre elas, encontram-se, por exemplo, a glomeruloesclerose segmentar e focal, a glomerulopatia C3, doença de Fabry, etc. Estas últimas doenças consideradas raras e de difícil diagnóstico – muitas apenas com diagnóstico definitivo por biópsia do rim – e cujo diagnóstico é atrasado pela ausência de marcadores analíticos específicos e baixo grau de suspeição.
Por vezes, o primeiro sinal é apenas a presença de proteínas ou sangue na urina. Noutros casos, uma alteração da função renal, como a elevação da creatinina. Uma alteração isolada pode ter várias explicações e não significa necessariamente doença, mas quando persiste ou volta a aparecer, deve ser avaliada.
Os números ajudam a perceber porquê. Segundo o Relatório de 2025 do Registo Nacional de Doença Renal Crónica da Sociedade Portuguesa de Nefrologia, 14,1% das pessoas em diálise em Portugal tinham como causa uma glomerulonefrite crónica, um grupo que inclui várias doenças renais menos frequentes. Entre as pessoas que iniciaram diálise nesse ano, 17,5% tinham uma causa desconhecida para a sua doença renal2.
Este último dado merece atenção. Não significa que todos esses casos pudessem ter sido evitados ou diagnosticados mais cedo. Mas, quando a doença renal é identificada numa fase muito avançada pode já não ser possível determinar, com precisão, o que esteve na sua origem. E conhecer a causa pode ser importante para orientar o tratamento, avaliar o risco de outros familiares e, em alguns casos, acompanhar um eventual transplante renal.
Há hoje mais capacidade para diagnosticar e tratar muitas doenças renais. Em algumas delas, um diagnóstico precoce permite controlar a evolução durante muito tempo. Isto torna, ainda, mais importante não desvalorizar sinais persistentes apenas porque não existem sintomas.
Há, também, comportamentos aparentemente banais que não devem ser desvalorizados. A utilização frequente ou prolongada de alguns medicamentos pode afetar a função renal, sobretudo em pessoas que já apresentam doença renal ou outros fatores de risco.
Não se trata de transformar qualquer alteração analítica num motivo de alarme. Trata-se de perceber que sentir-se bem não é, por si só, uma garantia de que está tudo bem.
Os rins podem permanecer silenciosos durante muito tempo. As análises, por vezes, falam primeiro e vale sempre a pena ouvi-las.
Referências.
- Site da Sociedade Portuguesa de Nefrologia (SPN): https://www.spnefro.pt/noticias/a-urgencia-silenciosa-da-saude-renal (Último acesso, setembro de 2026.)
- Gabinete de Registo de Doença Renal Crónica | Sociedade Portuguesa de Nefrologia: https://www.spnefro.pt/sociedade/gabinete-de-registo-de-doenca-renal-terminal (Último acesso, setembro de 2026.)
