“É importante aumentar a literacia das pessoas para as consequências da privação do sono”

18/03/22
“É importante aumentar a literacia das pessoas para as consequências da privação do sono”

No âmbito do Dia Mundial do Sono, que se assinala hoje, 18 de março, a Prof.ª Doutora Teresa Paiva, neurologista e especialista em doenças relacionadas com o sono, alerta para a importância da consciencialização sobre os riscos da privação do sono. Em entrevista à News Farma, a especialista identifica este problema como o problema mais comum nos portugueses.

A Prof.ª Doutora Teresa Paiva refere que a maioria da população privilegia outras atividades em oposição às horas de sono, contribuindo para “problemas graves tanto da saúde física como psíquica”. A privação do sono acarreta também doenças associadas. Nesse sentido, “é importante aumentar a literacia das pessoas para que não privem o sono, fazendo-as compreender que existem consequências”.

Os casos de insónias são “frequentes”, partilha, podendo ter diferentes causas, tais como traumas, perdas e agressões violentas ou até mesmo a apneia. “Cada insónia é um caso diferente e deve ter um tratamento personalizado”, salienta, sendo preciso focar-se primeiramente na mudança de hábitos e das crenças associadas ao sono. Consoante o caso de cada pessoa, pode recorrer-se também a terapias cognitivo-comportamentais.

Por vezes, “existem doenças do sono, neurológicas ou psiquiátricas, em que o tratamento da respetiva doença está aliado ao tratamento do sono”. Apesar disso, a insónia pode persistir, tornando-se “o prognóstico mais difícil em relação ao sucesso terapêutico”.  

“O tratamento farmacológico é muito importante.” Contudo, alerta para a importância de verificar o fármaco mais adequado para cada caso consoante as características do sono de cada pessoa. Apesar disso, a especialista afirma-se contra o uso indiscriminado de melatonina em adultos e crianças, podendo bloquear a sua produção endógena. “É necessário haver uma suspeita concreta de falta de produção de melatonina e um distúrbio associado a essa não-produção para que faça sentido esse tratamento.”

As benzodiazepinas geram dependência e aumentam os problemas de memória, não sendo por isso aconselhadas pela neurologista, principalmente em pessoas com mais de 60 anos, já que pode aumentar os riscos para outras doenças, como o cancro, a demência e a morte precoce. Por estes motivos, “a insónia deve ser tratada com delicadeza”, recorrendo a terapêuticas de benzodiazepinas apenas em casos muito específicos. “Não se devem dar grandes doses de remédios e os aumentos de dosagem devem ser feitos progressivamente, assim como a descontinuação dos mesmos.”

O diagnóstico da apneia obstrutiva do sono “deve ser feito por polissonografia tipo 1 ou tipo 2, com eletroencefalograma incluído no registo”. A neurologista indica que “os exames mais simples sem o eletroencefalograma, chamados estudos cardiorrespiratórios, têm problemas na deteção das hipopneias. Como não identificam o microdespertar, os diagnósticos podem ser errados”, refere.

Outro distúrbio conhecido no sono é o sonambulismo, considerado “mal diagnosticado” pela especialista, já que deve ser avaliado vários fatores como a idade da pessoa, o próprio acontecimento e os fenómenos associados bem como a sua memória após acordar. Após a confirmação do caso, devem identificar-se os catalisadores e evitá-los.

Em alguns casos, a privação de sono faz aumentar o sono profundo, propiciando o sonambulismo. Noutros casos, pode estar associado a determinados fármacos ou ao consumo de álcool. Exercício físico exagerado pode ser outro fator associado a um episódio de sonambulismo.

A paralisia do sono é outro problema “preocupante” para os doentes. Esta patologia consiste “numa saída anormal do sono REM onde há uma dissociação entre a mente e o corpo”, explica, podendo surgir como sintoma isolado ou no quadro de uma narcolepsia. Neste último caso, a doença deve ser devidamente tratada. E acrescenta: “Para combater este problema, é importante não fazer a privação de sono, evitar drogas e determinados fármacos e evitar, se possível, o sono pela manhã porque potencia ainda mais a paralisia do sono.” Sintomas como o excesso de sonolência, a perda de força muscular relacionada com as emoções, episódios de paralisia do sono e alucinações hipnagógicas revelam o diagnóstico da doença.

Por fim, a Prof.ª Doutora Teresa Paiva faz recomendações para evitar o cansaço extremo e facilitar a qualidade do sono. “É importante que as pessoas não se cansem demais. É importante as pessoas reconhecerem os seus limites, evitando excessos de horas de trabalho e fazendo pausas durante o dia.” A atividade física, o contacto com o ar livre e uma boa alimentação são importantes para equilibrar o cansaço.

Partilhar

Publicações