“A doença inflamatória do intestino pode ter um impacto muito grande na qualidade de vida das pessoas”

19/05/22
“A doença inflamatória do intestino pode ter um impacto muito grande na qualidade de vida das pessoas”

No âmbito do Dia Mundial da Doença Inflamatória Intestinal, a News Farma entrevistou a Prof.ª Doutora Joana Torres, gastrenterologista no Hospital Beatriz Ângelo e no Hospital da Luz, Lisboa, que procurou esclarecer possíveis dúvidas relativamente à identificação dos sintomas e complicações associadas.

Relativamente ao processo de diagnóstico, a Prof.ª Doutora Joana Torres explicou que “é habitual na doença de Crohn haver um atraso no diagnóstico que pode chegar até cerca de dois anos desde o início dos sintomas. Esse atraso é menos comum na colite ulcerosa; o atraso no diagnóstico na Doença de Crohn pode estar associado a formas mais complicadas da doença.

Os sintomas são distintos. A doença de Crohn, por exemplo, atinge mais frequentemente o intestino delgado e a parte direita do intestino grosso e, por isso, manifesta-se com diarreia, dor abdominal, perda ponderal; pode também haver manifestações extra-intestinais tais como aftas ou dores nas articulações. “Estes sintomas podem passar despercebidos pelos médicos como sintomas de alerta para uma doença de Crohn, causando um atraso no diagnóstico”, afirma a médica, explicando que, quando se trata da colite ulcerosa, a inflamação estende-se de forma proximal do reto para as zonas mais próximas do cólon. “Pode haver perdas de sangue ou de muco, e aumento do número de dejeções, podendo haver, quando existe maior extensão da inflamação no cólon, diarreia com sangue”, explica, esclarecendo que a presença de sangue induz mais cedo ao alerta dos médicos que conduzem mais facilmente o doente ao diagnóstico.

A Prof.ª Doutora Joana Torres considera que “é importante haver uma maior divulgação dos sintomas''. Sendo que afeta uma população mais jovem que é muito ativa, entre os 15 e os 35 anos, podendo estar a desempenhar funções na escola, na faculdade ou a iniciar a sua vida profissional”. Há, por isso, uma tendência desta faixa etária para valorizarem os sintomas e procurarem ajuda médica, para permitir um diagnóstico mais precoce.

A Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia lançou uma campanha disponível nas redes sociais e nas plataformas das associações de doentes intitulada “Não chegues atrasado ao diagnóstico”, que alerta para a consciencialização dos sintomas. Atualmente tem existido uma maior divulgação e uma maior perceção da doença na Medicina Interna, e na Medicina Geral e Familiar, e noutras especialidades, além da Gastrenterologia. Devido ao aumento de casos com doença inflamatória do intestino, os médicos estão mais atentos e informados, o que facilita o diagnóstico antecipado. Contudo, continuam a existir muitos doentes com queixas de diarreia, dor abdominal e estes sintomas são desvalorizados ou interpretados como síndrome de intestino irritável que é muito diferente de uma doença inflamatória intestinal.

Está disponível um método de diagnóstico - a calprotectina fecal - que se realiza por uma análise às fezes refletindo a inflamação presente no intestino. Deste modo, “conseguimos distinguir quais os doentes que têm indicação para fazer uma colonoscopia, daqueles que os sintomas se podem encaixar mais na síndrome de intestino irritável", atesta.

Além das dificuldades que possam surgir no processo de diagnóstico, há outras complicações associadas à qualidade de vida. Como a especialista em Gastrenterologia indica, “a doença inflamatória pode ter um forte impacto na qualidade de vida das pessoas, sendo que há doentes com gravidades distintas da doença. Por exemplo, há doentes que são refratários às terapêuticas disponíveis”, aponta, exemplificando também com os casos de doença perianal – cerca de 20% - fortemente prejudicados na vida íntima.

Sendo diagnosticados em fase ativa, estes doentes com forte sintomatologia acabam por se ausentar da escola ou do trabalho, afirma a médica. Porém, os especialistas na área procuram uma estratégia de tratamento e de monitorização que consiga devolver qualidade de vida aos doentes.

No entanto, o maior objetivo terapêutico continua a ser o controlo da inflamação, de forma mais profunda possível, para que todas as lesões inflamatórias visíveis na endoscopia sejam cicatrizadas, devolvendo desta forma a qualidade de vida semelhante à da população em geral.

Mesmo os doentes, que conseguem naturalmente manter uma boa qualidade de vida, têm de se deslocar regularmente ao hospital para a realização de exames, tratamentos e consultas. “Neste sentido, existe uma carga associada à monitorização da doença e ao tratamento que não deixa de ser importante”.

Já no que diz respeito à gravidade e à localização da doença as origens podem ser muito distintas para cada doente. “A variabilidade de resposta à terapêutica é imensa. Há uma série de variáveis que podem influenciar a qualidade de vida”, explica.

A gastrenterologista acrescenta que “existe muito interesse na prevenção da doença, mas não existe ainda nenhuma estratégia farmacológica para prevenir o aparecimento da doença, embora dependa das condições de cada doente”.

“Os estudos epidemiológicos apontam para a importância de não utilizar antibióticos de forma desnecessária, manter uma alimentação saudável com exercício físico, não fumar, e estar mais atento se tiver familiares com a doença de Crohn. São estratégias que poderão prevenir o aparecimento da doença. Não há provas disso, mas são estratégias saudáveis”, conclui.

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