“O médico deve estar preparado para dar más notícias, de modo empático e adaptando a linguagem ao doente”

06/11/23
“O médico deve estar preparado para dar más notícias, de modo empático e adaptando a linguagem ao doente”

Leia a entrevista à Dr.ª Ana Raimundo, especialista em Oncologia, no Hospital CUF Tejo e no Hospital CUF Cascais, sobre o SimTalk, um curso de comunicação de más notícias na prática clínica, transversal e multidisciplinar, que irá decorrer a 9 de novembro, dirigindo-se a todos os profissionais de saúde com interesse na prática de competências em comunicação de más notícias.

News Farma (NF) | O ato e a vivência de ser médico implica sempre comunicação honesta e aberta com o doente. E em todas as especialidades de Medicina há más notícias a dar. O que torna a Oncologia uma área mais sensível nesta matéria, que mereça um curso dedicado com vários cenários e abordando várias neoplasias?

Dr.ª Ana Raimundo (AR) | A Oncologia trata de doenças crónicas, por vezes, graves e potencialmente fatais, daí resultar a necessidade de o médico estar preparado para dar más notícias, de modo empático e claro, adaptando a linguagem ao doente que está à sua frente. Nem sempre a mesma notícia deve ser dada do mesmo modo a pessoas diferentes. As diferenças, e aquilo que a pessoa quer e precisa de saber, deve ser tido em conta. Em Oncologia, a comunicação é fundamental para o doente e para o próprio profissional de saúde. Para o doente, para melhor compreensão da sua doença e história natural, para melhor adesão e colaboração no tratamento, e satisfação com os cuidados de saúde prestados. Por parte do profissional, para melhor utilização do tempo disponível para a consulta, para diminuir o cansaço e burnout associado a prestação de cuidados de saúde em áreas mais difíceis, e para aumentar o sentimento de realização profissional. Os vários cenários são necessários para tentar simular o mais possível o que se passa na vida real. 

NF | Para a simulação dos cenários de comunicação entre profissional de saúde e doente foram escolhidos os contextos dos carcinomas da próstata; do canal anal; do cólon; do pulmão. Porquê a escolha destas neoplasias em concreto?

AR | Os cenários vão tentar simular, o mais próximo possível, o que se passa na vida real, com a colaboração de todos os intervenientes. Mais importante do que as patologias em si, são os cenários que interessam: Como comunicar o diagnóstico de cancro; comunicar com o(s) acompanhante(s) interventivo(s); comunicar a progressão da doença quando o doente está “curado”; comunicação em fim de vida.

NF | Compreende-se que a comunicação em fim de vida seja o momento que todos os médicos gostariam de evitar, na sua perspetiva qual é o segundo momento mais desafiante?

AR | Na história natural das doenças oncológicas há vários momentos desafiantes, sendo a comunicação em fim de vida das mais difíceis. Comunicar ao doente que as intervenções dirigidas ao controlo da progressão da doença vão ser paradas, é muito difícil. Porque a questão que o doente coloca de seguida é “Então, não há nada a fazer?”. Mas há muito mais a fazer no tratamento e controlo dos sintomas da doença. E é esta segurança de manutenção de acompanhamento e controlo de sintomas para manter ao máximo a qualidade de vida, que temos de transmitir ao doente e cuidadores.

O segundo momento mais difícil é dar a notícia do diagnóstico de cancro, porque é um momento de choque e de medo que arrebatam os sentimentos e emoções do doente. Ele deixa de ouvir e a comunicação pode ser muito difícil.  

NF | Este curso tem uma componente eminentemente prática. Como funcionou a articulação entre os profissionais de saúde e outros especialistas da psicologia e da comunicação, para recriar de forma fidedigna os cenários concebidos e equipar os profissionais com as atitudes e informações adequadas para lidar com estes momentos específicos com os seus doentes?

AR | Este é um curso de simulação, principalmente prático, em que os participantes poderão participar nos cenários, e de seguida, dar-se-á a discussão do que se passou no decorrer da ação. Irá recriar os ambientes em que se passam habitualmente as consultas e onde ocorre a comunicação entre profissionais. Os participantes nos cenários serão como atores, havendo de seguida, um momento de debriefing em que se discute o que se passou, o que se fez melhor e pior, e todos aprendem com a experiência. Os especialistas de comunicação e de psicologia ajudarão a analisar o que se passou em cada um dos cenários, permitindo tirar conclusões e aprendizagens a levar para o futuro.

NF | Já houve cursos semelhantes de comunicação anteriormente? Se sim, que feedback obtiveram? 

AR | Nestes moldes, não houve outros cursos anteriormente. Na verdade, a formação dos profissionais de saúde nesta área é bastante escassa, quer na formação pré-graduada, quer na formação pós-graduada. Deste modo, é nossa opinião que a realização deste curso, assuma ainda mais uma importância de grande relevo.

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