PUB

Da periferia ao centro: o lugar do enfermeiro de família na transformação dos cuidados de saúde

Num sistema de saúde ainda focado no doente isolado, o envelhecimento populacional e o aumento das doenças crónicas exigem uma mudança urgente de paradigma. Num artigo de opinião, Ricardo Sousa Mestre, enfermeiro e professor na ESSATLA, Escola Superior de Saúde Atlântica, explica que é imperativo reconhecer a família como unidade fundamental de saúde e colocar o enfermeiro de família no centro da estratégia, garantindo assim um sistema mais eficaz e sustentável.

Com o envelhecimento acelerado da população, o aumento das doenças crónicas e a fragilidade das redes de apoio, os sistemas de saúde enfrentam desafios crescentes que ameaçam a sua sustentabilidade. Neste cenário, torna-se imperativo recentrar o olhar sobre a família enquanto unidade fundamental de saúde.

Apesar da evidência científica reconhecer a família como o principal contexto onde a saúde se constrói, se mantém e se transforma, os sistemas de saúde continuam, em larga medida, ancorados num modelo tradicional, focado apenas no doente isolado e na sua doença. Esta abordagem, embora necessária, revela-se insuficiente para responder à complexidade dos problemas de saúde contemporâneos. A desvalorização da família enquanto alvo de intervenção traduz-se em fragilidades significativas no acompanhamento, na capacitação e no suporte aos processos de adaptação que ocorrem no quotidiano.

É aqui que o enfermeiro de família se assume determinante. Este profissional distingue-se pela capacidade de compreender a pessoa no contexto das suas relações. Reconhece a família como um sistema dinâmico, com necessidades, recursos e vulnerabilidades próprias. A sua intervenção não se limita à prestação de cuidados pontuais, mas integra uma abordagem contínua, relacional e centrada nos processos de vida, acompanhando as famílias ao longo do ciclo vital e nos diferentes momentos de transição.

Num sistema frequentemente marcado pela fragmentação dos cuidados, o enfermeiro de família emerge como um elemento de integração e continuidade. Através de uma relação terapêutica próxima e sustentada, este profissional tem a capacidade de identificar precocemente situações de risco, promover a literacia em saúde, capacitar os membros da família para a gestão da doença e facilitar a adaptação a novas condições de vida. A sua intervenção contribui, assim, para a melhoria dos resultados em saúde, a redução de complicações evitáveis e a otimização da utilização dos recursos disponíveis.

Contudo, a sua integração e centralidade nos sistemas de saúde não se encontra ainda plenamente consolidada. Persistem modelos organizacionais que privilegiam intervenções reativas em detrimento de abordagens preventivas e promotoras de saúde, bem como constrangimentos estruturais que limitam a operacionalização de uma prática verdadeiramente centrada na família. Esta realidade levanta questões sobre o alinhamento entre o conhecimento produzido, as necessidades da população e as respostas efetivamente implementadas.

A invisibilidade relativa do trabalho desenvolvido pelo enfermeiro de família constitui, igualmente, um desafio. Intervindo muitas vezes no espaço privado
das famílias, em processos que não são imediatamente quantificáveis ou visíveis, o impacto da sua ação tende a ser subvalorizado. No entanto, é precisamente neste espaço, onde se tomam decisões quotidianas, onde se vivem as transições e onde se constrói a experiência de saúde e doença, que se encontram oportunidades decisivas de intervenção.

Perante este cenário, impõe-se uma reflexão: será possível garantir sistemas de saúde mais eficazes, equitativos e sustentáveis sem reconhecer a responsabilidade do enfermeiro de família? Poderemos continuar a investir predominantemente em respostas tardias, ignorando o potencial de intervenção precoce e contextualizada que este profissional oferece?

A resposta a estas questões exige uma mudança de paradigma. Requer o reconhecimento da família como unidade de cuidado, a valorização da proximidade e da continuidade e a integração efetiva do enfermeiro de família no centro das estratégias de saúde. Não se trata apenas de reorganizar serviços, mas de redefinir prioridades, orientando os sistemas de saúde para uma lógica mais preventiva, participativa e centrada nas pessoas e nas suas relações.

Em síntese, o enfermeiro de família assume-se um elemento nuclear na transformação dos cuidados de saúde na atualidade. A sua intervenção, ancorada na proximidade, na compreensão sistémica e na continuidade, constitui uma resposta ajustada aos desafios contemporâneos. Ignorar ou subvalorizar este pressuposto não compromete apenas a prática profissional, mas limita, de forma significativa, a capacidade dos sistemas de saúde responderem às necessidades reais da população.

Num tempo em que se procuram soluções inovadoras para problemas complexos, talvez seja necessário recentrar o debate e reconhecer uma evidência fundamental: a sustentabilidade dos sistemas de saúde depende, em larga medida, da capacidade de cuidar das famílias. E, nesse processo, o enfermeiro de família não pode permanecer na periferia. Deve, inequivocamente, ocupar o centro.

Sexta-feira, 07 Agosto 2026 17:17


PUB