A manifesta falta de recurso à imagem foi uma das principais dificuldades enfrentadas pelos médicos que tiveram de realizar teleconsultas na primeira fase da pandemia para consultar os seus utentes, revela o estudo desenvolvido pela Associação Portuguesa de Telemedicina (APT), com o apoio da Ordem dos Médicos, que inquiriu cerca de 2225 médicos para a caraterização do panorama nacional da teleconsulta/consulta sem a presença do utente realizada no SNS nessa altura.
O estudo, coordenado pelas médicas investigadoras do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, Dr.ª Catarina O’Neill e Dr.ª Margarida Matias, teve ainda como objetivo analisar a opinião dos médicos e averiguar a viabilidade da teleconsulta como alternativa regular à consulta presencial após a pandemia, tendo respondido ao questionário 7,2% do total dos médicos que exerciam funções no SNS.
Os resultados do trabalho, agora divulgados, revelam que a teleconsulta foi utilizada por grande parte dos médicos de instituições do SNS (94% dos inquiridos), de diversas especialidades – as três especialidades mais representadas foram Medicina Geral e Familiar (35%, n=785), Medicina Interna (8%, n=172) e Pediatria (5%, n=117) – e de todas as faixas etárias, para continuar a assegurar cuidados de saúde aos utentes, em todo o país.
As teleconsultas realizaram-se maioritariamente através de chamada telefónica (99% dos inquiridos) e apenas 8% dos médicos realizou videochamada, recorrendo sobretudo a plataformas informais (WhatsApp, Zoom, Skype) e residualmente a plataformas específicas e seguras para teleconsulta. Contudo, “a possibilidade de teleconsultas com suporte vídeo é algo ambicionado pela maioria dos inquiridos (82%)”, considerando os médicos que “devem ser disponibilizados os meios nas instituições de saúde para que a teleconsulta com suporte de vídeo se torne uma realidade ao serviço dos médicos e utentes”.
O estudo pôs ainda a nu outras dificuldades sentidas pelos médicos, nomeadamente de natureza técnica, com destaque para a “dificuldade na adaptação do utente ou cuidador às tecnologias de comunicação” e “as inadequadas ou inexistentes tecnologias de comunicação”. As dificuldades de natureza clínica mais reportadas foram “a impossibilidade de realizar o exame físico e a dificuldade na transmissão ou compreensão de informação clínica do utente ou cuidador”, considerando os clínicos inquiridos que “algumas dificuldades clínicas identificadas poderão ser mitigadas pela utilização de suporte de vídeo”, embora reconhecendo também que “algumas são inerentes à prestação de cuidados de saúde à distância”.
Na opinião dos médicos, “é fulcral existir uma adequada seleção de doentes para avaliação por este formato de consulta para que não se comprometa a qualidade dos cuidados de saúde providenciados”, defendendo que “os critérios de inclusão para teleconsulta deverão ser adaptados consoante a especialidade/subespecialidade de consulta e definidos em parceria com os Colégios das Especialidades e as sociedades médicas científicas”.
Nas conclusões do estudo, a APT antecipa que “a teleconsulta poderá ser particularmente útil para o seguimento de patologia crónica controlada, aconselhamento clínico, revisão terapêutica, triagem, questões administrativas (renovação receituário, relatórios médicos), etc…” e que, por outro lado, “esta poderá ser inapropriada para doentes com patologia aguda, crónica agudizada, quando é necessário realizar exame físico ou exames complementares de diagnósticos urgentes ou quando o doente é incapaz de utilizar as tecnologias de comunicação por ausência das mesmas, por inadaptação, por presença de défices sensoriais ou cognitivos, barreiras linguísticas, etc.”.
De qualquer forma, e apesar dos constrangimentos identificados, o inquérito revelou que “50% dos médicos encontra-se satisfeito ou muito satisfeito com a teleconsulta realizada a contrastar com 16% que se diz insatisfeito ou muito insatisfeito”.
Após a pandemia, “os médicos dizem-se motivados para continuar a realizar teleconsulta”, sendo que 70% referiu que “gostaria de continuar a realizar teleconsultas subsequentes”.
Para o futuro, os autores do estudo consideram que “a implementação da teleconsulta como alternativa ou complemento à consulta presencial deverá ser guiada por estratégias de âmbito institucional, regional e nacional que mobilizem os Conselhos Diretivos das ARS, as direções executivas dos ACES, as administrações hospitalares e as direções dos serviços para promover a adoção da teleconsulta que é proposta pela grande maioria de médicos”.
A APT considera que “o conhecimento adquirido neste estudo, permite ter uma perspetiva importante para guiar as instituições de saúde e órgãos diretivos na criação de sistemas e infraestruturas que permitam providenciar cuidados de saúde através de telemedicina, convenientes e custo efetivos”, defendendo que “esta é uma estratégia útil para lidar com epidemias futuras, mas sobretudo para diversificar e rentabilizar as modalidades de prestação dos cuidados de saúde”.
“A teleconsulta poderá fazer parte do futuro da prática clínica em Portugal. No entanto, impõe-se solucionar questões de natureza clínica, técnica, organizacional e legal que terão de ser asseguradas previamente”, conclui a APT, acrescentando que “a teleconsulta, como todas as outras atividades médicas, só faz sentido se centrada no utente e com benefícios evidentes para este”.
Medidas propostas pelos médicos para facilitar a implementação da teleconsulta:
- Criação nas instituições de saúde de espaços físicos adequado para teleconsulta, devidamente equipados;
- Disponibilização de equipamentos adequados para teleconsulta como computadores, webcam, conexão internet, telefone;
- Criação de plataforma específica para teleconsulta ou adaptação dos programas informáticos existentes para as necessidades da teleconsulta, permitindo a agilização dos processos da consulta, nomeadamente envio de relatórios, requisições de exames diagnósticos e assinatura digital de documentos;
- Existência de equipa de suporte dedicada à teleconsulta;
- Promoção de ações de formação dirigida a médicos sobre regulamentação, técnicas e tecnologias para teleconsulta;
- Campanha de sensibilização aos utentes e cuidadores para teleconsulta;
- Criação na agenda do médico de períodos de consulta dedicados a teleconsulta;
- Implementação de regulamentação específica para teleconsulta;
- Assegurar disponibilidade de meios e tecnologias de comunicação para os utentes poderem receber teleconsulta.
