John Bostock reuniu vários casos, todos eles relacionados com condições climatéricas de primavera e verão, o que o levou a chamar-lhes “catarrhus aestivus”, verificando que só ocorriam nas classes média e alta da sociedade, pelo que pensou que a febre dos fenos era causada pelo ar aquecido, fazer banhos de sol ou pelo exercício físico feito como manutenção do corpo.
Só em 1893, Charles Blackley, que sofria de febre dos fenos, publicou um livro “Experimental researches on the cause and nature of catarrhus aestivus” onde identificou os poléns das gramíneas como causa dos sintomas.
Foi o primeiro a efetuar provas de provocação, mostrando que colocando grãos de polén no nariz reproduzia os sintomas da febre dos fenos e que quando colocados nos olhos causavam conjuntivite.
Verificou que os indivíduos que trabalhavam no campo, mais expostos a poléns, eram os que tinham menos casos de doença, considerando que esses indivíduos se tornavam insusceptíveis à ação dos poléns pela sua maior e contínua exposição, abrindo caminho para a desenssibilização que Noon e Freeman, experimentariam 40 anos mais tarde.
A rinite alérgica é definida como uma doença sintomática do nariz, induzida por uma inflamação IgE mediada, após exposição ao alergéneo da mucosa nasal.
A rinite alérgica representa um problema global de saúde pública, afetando 10 a 25% da população mundial, embora muitos doentes não reconheçam os seus sintomas como doença e não consultem o médico.
A sua prevalência tem aumentado de forma preocupante nas últimas décadas, ocupando o top ten das razões para consulta médica nos cuidados primários.
Não sendo uma doença severa, altera significativamente a vida social dos doentes, a sua qualidade de vida, a sua produtividade e aproveitamento escolar.
Em Portugal a rinite é das doenças mais subestimadas, subavaliadas, subdiagnosticadas e consequentemente subtratadas.
Segundo o estudo ISAAC, no nosso país, a prevalência da rinite é de 29,1% nas crianças de 6-7 anos e de 37,1% nas crianças dos 13-14 anos.
No estudo ARPA, em Portugal, a prevalência era de 22% no grupo dos 3 aos 5 anos, onde só 36% tinham diagnóstico prévio e só 37% tinham feito tratamento no último ano e era de 40% no grupo dos 15 aos 25 anos, onde só 18% tinham diagnóstico médico e 31% tinham feito medicação no ano anterior.
Num estudo feito, por mim, no Agrupamento de Escolas da Lourinhã (Estudo ARE- Asma e Rinite na Escola) em crianças com média de 12 anos de idade, a prevalência estimada da rinite alérgica era de 42% e só 8% delas tinham diagnóstico médico, revelando o subdiagnóstico e o subtratamento.
A rinite alérgica como doença crónica tem um impacto nos doentes afetados, nas suas famílias, nos sistemas de saúde e na sociedade como um todo.
Este peso compõe-se de custos diretos, relacionados com os cuidados médicos (consultas, meios de diagnóstico, medicamentos) e de custos indiretos, associados com perda de aproveitamento escolar e produtividade nos locais de trabalho. A estes somam-se custos intangíveis, especialmente os relacionados com o impacto psicosocial da doença.
Nos E.U.A estimam-se que 39 milhões de pessoas sofram de rinite alérgica, com um custo total estimado em 1.2 biliões de dólares, embora só cerca de 5 milhões destas pessoas tenham tratamento médico para a sua doença e que 93% destes custos estejam relacionados com o tratamento médico.
Os custos com a rinite alérgica são subestimados dado o uso frequente de medicamentos não prescritos e muitos desses custos serem associados a outras condições concomitantes como a asma, que como sabemos se associa com muita frequência à rinite alérgica.
No Japão, o custo de doente com rinite alérgica e por ano estima-se em 118 dólares.
O impacto da rinite alérgica na capacidade de trabalho é das patologias mais importantes. Num estudo recente, verificou-se que a média de produtividade perdida por posto de trabalho e por ano é de $593, enquanto que na hipertensão é de $105, na diabetes $95, na asma $85 e na doença coronária $40.
Concomitantemente a este encargo financeiro a rinite alérgica altera a qualidade de vida do doente e por vezes da família, alterando o seu bem-estar, impedindo-o de executar determinadas atividades, incluindo o exercício, com alterações do sono, da concentração, que conduzem a uma vida bastante afetada. Estas alterações acontecem tanto na rinite persistente como na rinite intermitente.
Procurando reduzir estes custos assume a maior importância a educação dos doentes com informação apropriada, envolvendo-os ativamente na abordagem da sua doença.
Os benefícios da educação, que muitas vezes é secundarizada, permite melhoria da satisfação do doente com concomitante melhoria da qualidade de vida, melhor adesão à terapêutica e melhores resultados com repercussão no seu futuro.
Por Libério B. Ribeiro, imunoalergologista, presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia Pediátrica (SPAP)
Artigo original publicado na Childrens Medicine – Especial 3.º Congresso da SPAP
Embora a rinite seja considerada como uma doença dos tempos modernos, já no século IX tinha sido identificada e reconhecida em textos islâmicos e no século XVII descrita como um catarro nasal, pensando-se ser uma secreção do cérebro e de inicio associada a rosas, donde a classificação de “resfriado das rosas”.